Retorno às aulas requer atenção especial e um plano de ações

Foto: Alessandro Maschio/JP

De um dia para outro, professores e alunos tiveram de se adaptar à rotina das aulas a distância

Dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) apontam que a pandemia do novo coronavírus obrigou, em seu auge, 1,6 bilhão de estudantes a deixarem as salas de aula em mais de 190 países. No Brasil não foi diferente. Instituições, docentes e muitos menos os alunos estavam preparados para trabalhar com o processo de ensino e aprendizagem quando foram pegos de surpresa pela covid-19.

De um dia para outro os professores e alunos tiveram que se adaptar às aulas à distância. Com isso, as adversidades foram enormes, como aponta a professora Flávia Maniero. As pesquisas desenvolvidas pela educadora, com base em metodologias ativas, resultaram no programa Aprender a Aprender. Flávia destaca que nem todos tinham acesso à internet para acompanhar as aulas on-line. Somado a esse fato, faltaram a sala de aula, a convivência com os colegas, a socialização e a interação presencial com o professor. “Além disso, estes alunos longe dos amigos e dos professores tiveram que lidar com situações emocionais muito difíceis, como a perda de familiares e o medo da doença”, afirma Flávia. “Resultado de tudo isso? Evasão escolar, defasagem na aprendizagem e o aumento da desigualdade de aprendizagem”, acrescenta.

De acordo com ela, pesquisas realizadas por diversas instituições indicam grande defasagem na aprendizagem dos alunos. Uma delas, da rede estadual de ensino de São Paulo, mostra alunos do 5º ano do Ensino Fundamental apresentaram 46 pontos a menos (queda de 19%) na proficiência em matemática, e 29 pontos a menos (queda de 13%) em língua portuguesa, no início de 2021 em comparação com 2019, conforme dados do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica).

As pesquisas, segundo enfatiza a professora, têm indicado que o déficit de aprendizagem é maior em matemática quando comparado à competência de leitura.

Os resultados indicam que o aluno chegou ao 5º ano apenas com o que aprendeu no 3º ano – uma regressão de dois anos de estudos. Para o 9º ano do Ensino Fundamental e o 3º ano do Ensino Médio, a defasagem foi menor, o que sugere que o ensino remoto na pandemia prejudicou, em especial, os estudantes mais novos.

“Se a criança não é um leitor proficiente no quinto ano, se tem habilidades de leitura como leitor iniciante do terceiro ano, terá dificuldade em todas as disciplinas, pois não consegue compreender um texto simples”, aponta.

Para as crianças que estavam no processo de alfabetização a pandemia trouxe problemas ainda mais graves, pois a interação alfabetizadora-criança é indispensável.

Com a volta das aulas presenciais, Flávia avalia que os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem precisam compreender que esse retorno não é algo comum e igual a ‘volta das férias’; é diferenciada e não dá para recomeçar fingindo que está tudo bem. “Por isso, é muito importante ter um bom plano de ação de retomada às aulas presenciais somado, se preciso for, ao ensino suplementar, com aulas de reforço escolar”, avalia.

“Não podemos esquecer de que o aluno que chega à escola com muita defasagem de conteúdo vem também muito desmotivado. No retorno presencial, além de investir na recuperação dos conteúdos, as aulas precisam continuar sendo estimulantes, é preciso que a escola represente um lugar de descoberta, pesquisa e aprofundamento”, alerta.

Beto Silva
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