Revolução de 32: qual foi o papel de Piracicaba na ‘guerra’ paulista contra a Ditadura Vargas?

Foto: Alessandro Maschio/JP

Prefeito na época, Luis Dias Gonzaga, dizia que 10% da cidade se engajou na guerra; livro trará relatos

“Piracicaba parou na Revolução. Perdeu muitos voluntários. Teve famílias destroçadas pelo levante”. A frase é de Edson Rontani Júnior, jornalista, presidente do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba) e articulista do JP, sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, que, neste sábado, completa 90 anos.

Sim, foi uma guerra e São Paulo foi o único Estado que se uniu pelo levante. “O Brasil ainda respirava ar do Império. Estávamos à mercê da Constituição aprovada em 1891, a qual necessitava ser revista, dando o verdadeiro ar de República. Getúlio Vargas servia desta Constituição para governar o país a seu modo, para alguns de uma forma ditatorial, já que a mesma não via dissociação do Executivo diante do Legislativo e do Judiciário. Vargas chegou a fechar os Legislativos Federal e Municipal e governava como bem queria. Os paulistas queriam aplicação da democracia com uma nova constituinte, por isso, o levante de 1932 foi chamado de Revolução Constitucionalista”, explica Edson, que, em outubro, vai lançar o livro “Cartas a Piracicaba”, que trará diversos relatos escritos pelos piracicabanos nas trincheiras e nos fronts de batalha. O lançamento coincide com o fim da Revolução (9 de julho a 2 de outubro de 1932).

Antes de estourar a ‘guerra’ paulista contra Vargas, um estopim também deu força o levante: o M.M.D.C., Acrônimo pelo qual se tornaram representados os nomes dos mártires do Movimento Constitucionalista de 1932. “Foi uma sociedade secreta criada após o 23 de maio de 1932, quando foram mortos Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, depois de uma manifestação na Praça da República, em São Paulo, cujas vidas foram tiradas por simpatizantes do PRP, partido de Getúlio Vargas”, explica Rontani.

A partir daí, tudo mudou e a população paulista começou a protestar contra a Ditadura Vargas.

PROTAGONISMO
De acordo com André Manoel da Silva, oficial da ativa da Polícia Militar, membro do IHGP e especialista em história militar, a Revolução de 32 foi considerada um marco. “Pela primeira vez na história do País, até então, ocorre um engajamento voluntário de proporções únicas, envolvendo militares paulistas e tropas federais simpatizantes, e principalmente a população civil, que de forma tolamente voluntária, adere ao movimento, seja atuando na frente de combate como componente do Exército Constitucionalista, como na retaguarda contribuindo no esforço de guerra. Se trata, portanto, de um movimento com as mais firmes raízes republicanas e de defesa de interesses do povo paulista, em uma época em que a imprensa se traduzia em escrita e falada em que a velocidade de disseminação da informação era infinitamente menor. A população voluntária paulista foi protagonista dos principais embates bélicos ocorridos em solo brasileiro, na defesa e busca dos seus direitos e daquilo que acreditavam como um ideal a ser conquistado”.

VOLUNTÁRIOS DE PIRACICABA
Rontani fez uma árdua pesquisa sobre Piracicaba no período de 32 e usou, inclusive muitas matérias do Jornal de Piracicaba à época.

Os voluntários de Piracicaba que participaram da Revolução foram muitos. A primeira leva, de acordo com o jornalista, contou com 200 homens e mulheres, que formaram o 1º. Batalhão Piracicabano. Depois, partiram outros voluntários. “O prefeito na época, Luís Dias Gonzaga, dizia que 10% da cidade se engajou na Revolução, o que daria entre 2.500 e 3 mil pessoas. Muitos ficaram em Piracicaba colhendo e produzindo material de guerra (panelas, fardas, armamentos). O número mais próximo que cheguei em meus estudos é de 600 voluntários. Depois da Revolução, tornou-se comum a realização de festividades comemorativas e foram agregados piracicabanos que foram acolhidos em Piracicaba após o levante ou que não se cadastraram aqui durante os alistamentos”.

Os voluntários de Piracicaba se portaram com muitos elogios pela imprensa local, apontam os estudos feitos por Rontani. “Porém, um dos representantes da imprensa, Mário Neme, também foi voluntário. De forma que ele teve a parcialidade como ponto principal em seus relatos. Nossos conterrâneos eram descritos como o ‘exemplo em pessoa’, embora isso não seja contestável, uma vez que outros veículos de comunicação também destacavam os piracicabanos que atuaram nos Pelotões Negro, Esportivo e dos Funcionários Públicos. O 2º Batalhão Piracicabano foi descrito como formado por mercenários, sem qualquer piedade, assumindo a alcunha de “Columna Maldita” pelas atrocidades cometidas”, conta.

Piracicaba conta com o Mausoléu ao Soldado Constitucionalista, no Cemitério da Saudade, e com o Monumento ao Soldado, na praça José Bonifácio. Durante a Revolução, piracicabanos realizaram o ‘culto aos voluntários’ e nas homenagens posteriores, pessoas que na época da Revolução eram jovens ou crianças, criaram o culto aos membros da família que foram mutilados ou mortos durante o embate. Isso perpetuou-se ao longo das últimas décadas, com solenidade na praça e outras atividades. Não há dados precisos, mas teriam morrido em combate pelo menos 20 voluntários de Piracicaba.

Monumento ao Soldado Constitucionalista na praça José Bonifácio. Foto: Amanda Vieira/JP
Jazigo aos Voluntários de 32 no Cemitério da Saudade: homenagem. Foto: Amanda Vieira/JP

Nani Camargo
Especial para o JP

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