Fosse o velho professor, em tom jocoso, quem grafasse errado alguma palavra, os leitores do JP ficariam em polvorosa nesta manhã domingueira, mesmo entendendo que errar é humano. A autoridade da Educação, no entanto, rapidamente impediu a veiculação de seu texto nas redes sociais dando-se, a si mesmo, “habeas corpus” linguístico, condenando a língua ao descaso, ao desterro, sem aparentar indignação. Nenhuma desculpa. Nenhuma justificativa. Tem tropeçado feio o Ministro. Ele entende que pode. A língua, última flor do Lácio, inculta e bela, que nos une sob o céu da pátria, mesmo desconhecida e obscura, não merece tanta desfaçatez!

Amedronta-me saber que Sua Excelência possa fazer valer sua autoridade e consiga provar, de forma equivocada, por ser rude o idioma, como afirma o poeta, ao revelar sua origem vulgar, possa usá-lo, falando ou escrevendo, como bem entender. O poeta parnasiano, com destreza e correção, defende a beleza da Língua, a um só tempo, esplendor e sepultura;/ ouro nativo que na ganga impura/ a bruta mina entre os cascalhos vela…” Afetivo, valoriza ter ouvido, da voz materna: “meu filho!”. Por igual motivo pulsa em mim igual sentimento.

No exílio voluntário em que vivi, foi a língua quem me fez chorar de saudade quando, por ela, buscava saber da cultura da minha pátria, da arte, da música popular, dos tons e dos sons. Das conversas em casa aprendendo a sentir a beleza da vida através da língua comum que nos unia, nas esperanças e no valor de ser como desenhavam de nós, nossos pais, obreiros da nossa linguagem.

Quanto me lembro de minha mãe preenchendo as noites de nossa infância, com livros de história e histórias que ela mesma inventava, dando asas à imaginação dos filhos e procurando injetar o amor de seu pai, o velho Major, pela língua portuguesa e, claro, pelos poetas de seu tempo, dentre eles, parnasianos como Bilac.

Brasileiros que somos, deu-nos o entendimento de que a pátria é a língua e, para tanto, deveríamos seguir o que Caetano Veloso ensinaria: sentir a língua roçar a língua de Luís de Camões e entregar-se ao que os portugueses, de forma crítica, afirmam ser língua brasileira procurando, com isso, ignorar a graça, o vivaz encantamento. a espontaneidade brasileira na forma como tratamos o idioma.

O Senhor Wintraub, com humildade. deveria valer-se de recursos assim para justificar os embaraços que tem ao sentir-se pouco a vontade com a Flor do Lácio, quando dela precisa para apresentar suas ideias de autoridade da Educação. Já confundira Kafka com kafta. Os asseclas, adeptos, correligionários do PT viraram acepipes na sua fala e ninguém foi capaz de entender que desejava fazer disso indigesto aperitivo para investidas sobre política educacional. Tivesse lido com cuidado Paulo Freire, entendendo, é claro, talvez não tropeçasse tanto.

A cada dia alguém oferece uma mensagem nova e gruda na memória e no coração do povo. E esta acontecência vivifica e fica a identificar o povo. A Língua Portuguesa praticada no Brasil acaba por isso a ser diferente de todas as outras. E nesta diferença está sua grandeza. “Nela reside verdadeiramente a nacionalidade!” A nossa nacionalidade. Tanto que os portugueses se perguntam se é mesmo portuguesa ou já será brasileira. Fernando Pessoa daria a resposta: É a base da Pátria!

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