Salário mínimo corroído: deterioração do poder de compra afeta quem ganha menos

Foto: Amanda Vieira/JP

A renda base necessária para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 6.754,33 por mês

O Brasil está entre os dez países do mundo com maiores índices de inflação. Segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a inflação brasileira, de 12,13%, está acima da média dos países do G20 (7,90%) e da União Europeia (7,80%). Na lista dos “top 10”, em primeiro lugar aparece a Turquia (69,97%), em segundo a Argentina (58,04%) e, em terceiro, a Estonia (18,88%). O Brasil está em 10º.

Levando-se em conta que quase 25% da população recebe um salário mínimo, segundo o IBGE, e que a renda-base do brasileiro está há três anos sem aumento real, a matemática é cruel para o assalariado: a deterioração do poder de compra afeta quem ganha menos. São os casos de Daniela Cristina Beltrame Porto, moradora do bairro Água Branca; e de Camila Oliveira, do Jardim das Flores. A primeira vive com um salário mínimo (R$ 1.212) e tem um filho de 8 anos com paralisia cerebral. Já a segunda, mãe de dois filhos, de 9 e 5 anos, consegue obter uma renda um pouco maior, variando entre R$ 1.500 a R$ 1.800. As duas mulheres relataram ao JP as dificuldades em viver em um país desigual.

Hoje, ir ao supermercado virou desespero. Comer ficou mais caro e o brasileiro tem optado pelo “prato feito basicão”. O valor dos alimentos aumentou em todas as capitais onde o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) realiza a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. Entre março e abril, as altas mais expressivas ocorreram em Campo Grande (6,42%), Porto Alegre (6,34%), Florianópolis (5,71%), São Paulo (5,62%), Curitiba (5,37%), Brasília (5,24%) e Aracaju (5,04%). São Paulo foi a capital onde o conjunto dos alimentos básicos apresentou o maior custo (R$ 803,99).

Se levarmos em consideração a determinação constitucional que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para suprir as despesas de um trabalhador e da família com saúde, alimentação, moradia, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência, nota-se que a conta não fecha, uma vez que a cesta básica está correspondendo a quase 70% do salário mínimo. Ainda segundo o Dieese em abril de 2022, o salário mínimo necessário para a manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 6.754,33, ou 5,57 vezes o mínimo.

“Os impactos na vida do trabalhador são diretos. A faixa da população que sobrevive com o salário próximo ao mínimo tende a ter um percentual grande dos seus rendimentos gastos com alimentação. Esse impacto é ainda mais presente em produtos da cesta básica. Como o mínimo não vem tendo ganhos reais (alta superior a inflação), o poder de compra da população se reduz com o passar dos anos”, diz Luiz Eduardo Gaio, doutor em administração pela USP e professor de finanças e economia da Unicamp.

O JP pediu informações ao Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq sobre os valores de alguns alimentos. A boa notícia é que devido ao aumento da oferta e também do frio registrado nos últimos dias, houve queda nos valores aos produtores, o que deve refletir nas gôndolas dos supermercados. São os casos do tomate, batata, cenoura e carne suína.

“A comida de casa ficou restrita”

Daniela Cristina Beltrame Porto sabe bem o que é passar dificuldade por viver com um salário mínimo. Tem gastos altos devido às necessidades do filho Gabriel, que tem paralisia cerebral, convulsões, usa fraldas e depende totalmente da mãe. “Como pagar o aluguel de R$ 780, mais R$ 400 de remédio, necessidades com roupas e ainda comer adequadamente com o que eu ganho? Só não pago transporte pois meu filho tem de graça. A nossa comida ficou restrita. O Gabriel ama bife e, às vezes, não posso comprar carne”, diz Daniela.

Camila Oliveira também têm filhos com problema de saúde e, por isso, ela e o marido optaram por pagar plano médico. Ela trabalha com fotografia, ramo afetado pela pandemia. “Eu tive que me reinventar, fiz comida para vender. Pagamos R$ 800 com aluguel e esse valor foi renegociado. Nossos gastos com comida passam de R$ 500 e acabou o cardápio saudável por aqui”. Camila diz que tenta lutar. “A gente corre atrás, mas tem hora que desanima. Não dá para bancar os gastos básicos que precisamos para sobreviver”, diz.

Nani Camargo
Especial para o JP

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