Saudade de um homem triste

Foto: Freepik

Muito cedo, aprendi: viver é perder. Mas como dói! E que assustador descobrir ser, o passado, a única realidade que sobra, todo o existente da história de cada um. O presente apenas agora está acontecendo. O amanhã nem sequer posso imaginá-lo. No entanto, o passado está comigo. Em mim. Sou eu nele; é ele, em mim. Seja na alegria, seja no sofrimento. O passado não passa. Fica.

A vida são perdas, essa aventura fantástica de ir-se encontrando flores com suas pétalas e espinhos – vendo-os, porém, murcharem, perdendo-os. Ganha-se um grande amor e perdemo-lo. Ganham-se pais e eles nos deixam. Ganham-se filhos e eles vão embora. Ganha-se a vida e ela se esvai. O segredo é simples demais. E, todavia, tão difícil de decifrá-lo: a sabedoria de saber perder.

Natal, para mim, é acontecimento nostálgico. Não penso na Criança que nasceu, o Menino anunciado pela estrela de Belém. E lá se me foi o tempo – perdido também – em que acolhi Papai Noel para alegrar meus filhos. E como foram belos e felizes os meus, os nossos Natais! Minha mãe deve ter sido uma fada com dons ainda mais especiais, tornando alegres e festivas todas as coisas que ela queria fazer. Mas eu sabia sua euforia, a festa, a beleza – tudo aquilo ser a sabedoria de saber perder. Na alegria, ela escondia toda a sua dor, a perda de filhos, tragédias passadas.

Para mim – apesar de nossos natais terem sido à imagem e semelhança de minha mãe – é o meu pai que se me torna mais presente, de maneira docemente triste. E, em especial, agora, neste Natal tão confuso. Meu pai, meu pai… Como é possível sentir tanta saudade de alguém? É algo sufocante, que aumenta dia a dia. Que, de tal forma se avoluma, me parece estar trazendo-o de volta para mim ou levando-me a seu encontro. Não mais sei se sou eu chamando-o, se é ele a chamar-me. Sei apenas, desejar o encontro, o reencontro.

Não saberei jamais explicar: não me vejo criatura feita por mim mesmo e, sim, esculpida espiritualmente por meu pai. Ele me inventou. Forjou-me com amor. Pois absolutamente todas as minhas lembranças são de um amor imensurável que dele jorrava para nós. E o maravilhoso disso: ele nunca me sugeriu um destino. Todo o seu amor tinha uma única e suprema razão de ser: “Quero que você seja feliz.” Apenas isso. Mas, tudo isso!

Sei haver, em mais este Natal, muito a agradecer. E quanto! Faço-o com humildade, mas com um agridoce sentimento com doses de melancolia, de saudade, de nostalgia. Melancolia, por uma tristeza indefinida; nostálgico, por sentir a doída ausência de um lugar, o da meninice; saudoso por, realmente, eu estar com imensa vontade de outra vez.

Neste Natal, é em meu pai que, mais agudamente, penso. Ele, depois de ver a filhinha morta sob as rodas de um caminhão, tornou-se um homem triste. Sua dor, sei que ele a dividiu com o violino de cujas cordas extraía sons merencórios.

Hoje, porém, emociono-me recordando a noite natalina dos meus cinco anos, quando, insone, esperei por Papai Noel. Havia um inesquecível céu azul-prateado, com estrelas sedutoras. Por ali, deveria chegar – com seu trenó e renas – o Papai Noel. Então, houve um ruído manso e meus pés alcançaram o embrulho que, em silêncio, o homem deixara na cama. Dei um grito de alegria. O homem era meu pai tão amado. Meu pai era o Papai Noel. Papai Noel era o meu pai. E minha vida se encantou.

Na noite deste Natal, continuarei à espera do meu Noel, o Papai Tuffi.

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