“Sem arte nossa vida fica bruta”

Romualdo Sarcedo teve diversos projetos adiados por conta da pandemia | Foto: Divulgação

Nunca antes na história uma famigerada – mas verdadeira – frase se popularizou em tão pouco tempo (em questão de cinco meses): o setor do entretenimento foi um dos primeiros a paralisar devido à pandemia, e será um dos últimos a se reestabelecer. Este é o cenário que contextualiza a conversa com o multifacetado artista piracicabano Romualdo Sarcedo, que experimentou – e ainda experimenta – distintas nunces da crise da covid-19 na cultura. Roma, como é conhecido, teve projetos interrompidos – alguns adiados por tempo indeterminado, outros que sequer conseguiram sair do papel ou dar mente inquieta deste artista que fez seu nome no meio cultural local por causa da ousadia de oferecer ao blico produções com forte lastro autoral.

Como a pandemia da covid-19 impactou de imediato nos seus trabalhos junto à cultura local?

Normalmente antes do Carnaval é um período sem muitos trabalhos, mas é quando começamos a visualiar como vamos conduzir os projetos ao longo do ano. E a perspectiva para 2020 era boa, com diversos projetos já próximos de serem iniciados, eu estava de fato motivado, entendendo que seria um ano de bastante trabalho – é o que esperamos. Mas comecei a acompanhar as notícias da covid-19 e aquilo de imediato me preocupava. Enfim, consegui fazer ainda uma apresentação no teatro, antes do fechamento, e isso foi de repente, tudo começou a ser adiado ou cancelado. Tiveram alguns editais de projetos na região que ainda ficaram em stand-by, aguardando entender melhor a situação para dar um rumo, mas também caíram. Foi o caso do projeto Brincadeiras de Poeta, que seria realizado em escolas e com apoio do Sesc, e foi suspensos, afinal, as escolas pararam. Então foi um início brutal, um golpe muito duro à cultura. O isolamento foi inevitável. E sei que isso não é apenas o setor cultural, todos da sociedade foi afetado.

E como ficou o projeto Brincadeiras de Poeta, existe alguma perspectiva de aplicá-lo a curto ou médio prazo?

Espero, sim! Os responsáveis pelo projeto, no Sesc, estão dispostos para que aconteça, apesar de não depender apenar da enorme boa vontade deles, que também acompanham de perto a nossa situação. As determinações vêm por ordem superiores, que devem ser respeitadas, numa ordem. Primeiro, se não tem aulas em escolas, não tem púbico; e não pode aglomerar, não temos vacina. Tudo muito complicado para alavancar a curto prazo. Vai acontecer, só não podemos planejar. Sinto muita falta de atuar, claro. Acho que as escolas também sentem pela não realização – o projeto acontece há algum tempo e creio que direção e alunos esperavam pelo nosso retorno, além de outros que sabem do projeto e o desejavam em sua escola. E agora tudo pausado, mas sei que, quando houver condições sanitárias, vai acontecer, sim.

Você foi um dos artistas piracicabanos que participou de um projeto, de uma plataforma de Portugal, para apoiar e divulgar online o teatro em meio à pandemia. Como foi possível esta experiência?

A partir do momento em que tudo ficou suspenso, eu entrei no esquema de quarentena e fiquei na internet buscando alternativas para atuar. Então recebi uma divulgação desta plataforma em Portugal, que buscava realizar um trabalho para auxiliar artistas nesta plataforma, e que teria a opção de pessoas fazerem doações espontâneas. Resolvi me inscrever e eles acharam interessante, fui o primeiro com um projeto fora de Portugal a ter uma apresentação escolhida. Inclusive falaram que a Teia-19, o nome deles, cruzava pela primeira vez o Oceano Atlântico. Isso, por certo, me motivou. E foi muito bacana abrir esta porta, até porque me motivei porque tenho um trabalho sobre o poeta português Fernando Pessoa, imaginei, mesmo, que talvez se sentissem homenageados com isso. E gostaram muito. Para mim foi uma responsabilidade imensa. Em termos de arrecadação foi modesto, mas não tem problema. A repercussão foi bacana, as pessoas daqui também foram simpáticas à causa, de lá idem, ficou um contato ótimo. Eles inclusive entraram em contato para saber como estava o retorno financeiro. Inclusive falaram que também enfrentavam as mesmas dificuldade e tem muitos trabalhos e pessoas na rede, não há condições de ajudar todo mundo. Mas foi super válido.

Além desta, você participou de mais algum projeto online durante estes meses na pandemia?

Sim, participei também do Festival Up, este aqui no Brasil. Mandei um vídeo e foi selecionado, entrou na plataforma e teve um cachê. Depois disso eu criei uma campanha de financiamento coletivo por conta do meu canal no Youtube, o Viva Poesia, uma plataforma que pode colocar qualquer projeto que busque um tipo de financiamento, colocando prazo e valor. As pessoas acessam e contribuem. Foi bacana, muitas pessoas ajudaram e foi, sim, gratificante. Aconteceu entre os meses de maio e junho. Deu um conforto, sem dúvida. Mas não dá para ficar repetindo. Fiz, acabou, foi aquele momento e a vida continua. Precisamos continuar correndo para dar conta dos compromissos. E tem sido assim em 2020, buscando, sem parar, formar de atravessar tudo isso.

E como está no canal Viva Poesia. Você continua atino com os conteúdos semanais em vídeo?

Estou, sim. O mantenho devagarzinho e o número de inscritos estão aumentando, claro, de forma moderada. Mas é assim, mesmo, é legal ver que a cada dia aparece novas inscrições, são pessoas que estão interessadas em cultura mesmo nestes tempos. Mantenho a postagem de poema, mas diminui um ritmo porque assumi um trabalho de fazer entregas, é o que me ajuda a me manter neste período. Só que é um trabalho que, evidentemente, toma muito tempo do meu dia, tenho compromisso de entregar um número de mercadorias todos os dias, e isso limita meu tempo. Afinal, preciso selecionar um poema, decorar, criar as condições para as gravações e editar, tudo isso leva um tempo. Tenho feito, praticamente, um a cada duas semanas, mais ou menos neste ritmo. Mas o canal está lá e pretendo mantê-lo, sempre com a meta de intensificar a produção. É um canal que me agrada muito, mantê-lo, trazer este cantinho de reflexão poética, e compartilhar com as pessoas. Isso, de alguma forma, nos abastece, quero acreditar nisso, então faço, sim, dentro do possível do tempo.

E quanto ao cadastro municipal da cultura de Piracicaba, da SemacTur (Secretaria Municipal da Ação Cultural e Turismo), você fez? Pretenderá pleitar o auxílio emergencial da cultura via Lei Aldir Blanc?

Fiz o cadastro e espero ter direito ao auxílio por esta lei, porque fui excluído do auxílio do Governo Federal por um item, enfim, não tive acesso ainda ao auxílio. Espero ter o direito, sim, pelo município. Quanto ao cadastro, acho importante e todos os artistas devem fazer. Não só por conta do auxílio, mas por conta das políticas públicas e que esteja lá, que as pessoas saibam que você exista, esteja lá registrado no cadastro. É uma forma de olhar para frente e torcer que venham projetos que contemplem aristas. Somos uma classe que sofreu e sofre duramente com a pandemia, sobretudo aqueles que, em um momento da vida, decidir viver de sua arte e fez disso o seu ganha pão. Quem vive da arte já vive de instabilidade, normalmente, mas este ano, claro, foi diferente, devastador. Então, é muito triste. Vemos pessoas competentes, talentosas e qualificadas sofrendo muito nesta situação. Fica aquela sensação de desproteção, se ver desguarnecido a ponto de precisar da colaboração de amigos e familiares. Por outro lado, tem a percepção boa de ver como as pessoas podem ser solidárias e sensíveis à questão, inclusive artistas, viu? Artistas da nossa cidade, que têm outras atividades, e se solidarizaram, continuam movimentando de todas as formas para socorrer aqueles que estão situação mais delicada. Acredito, então, que o cadastro é muito importante, assim com a Lei Aldir Blanc, com uma verba para os municípios. É importante que se olhe, sobretudo, para a classe artística, que representam a cultura de Piracicaba e, não raramente, levam o nome da cidade para fora. Piracicaba é uma cidade rica no âmbito cultural, com gente talentosa.

Roma, neste período, como foi sua relação com outros fazedores de cultura de Piracicaba? Você participa de grupos de discussões sobre o futuro da arte?

Mantenho conversa com algum pessoal, mais do teatro e da música, que se mobilizam para um socorro mais imediato dos artistas, e que debatem formas de atravessar isso até um grau de normalidade. Participo de um grupo chamado Liberdade Liberdade, não sou dos mais atuantes, devido aos compromissos do dia a dia. Mas ali tem um pessoal brilhante, atuante, agindo em prol dos artistas, trabalhando, fazendo campanhas, dialogando com o Poder Público. São pessoas bacanas, com propostas consistentes. Tudo é discutido e em todos os aspectos. Um grupo que busca o melhor para a cultura da cidade com quem mantenho um certo contato. Merecem muitos aplausos, não vou mencionar um ou outro porque é um grupo que já tem diversas pessoas, e todos estão dentro desta luta com o mesmo interesse e propósito.

Tudo o que você vivenciou, sentiu e tentou neste momento, causa uma reflexão constante do que é e do que será fazer cultura daqui para frente?

Esses projetos na internet aconteceram num contexto inevitável, até o canal Viva Poesia fiz no fim do ano, sem imaginar a pandemia, porque precisamos estar na rede, atingir as pessoas que estão muito conectadas. Claro que o plano real, o ambiente da encenação e com contato com o público é insubstituível, eu sinto falta. Mas tenho dúvidas como será pela frente, não consigo fazer planos. Estou como Fernando Pessoa no poema Adiamento, em que diz: ‘Hoje não traço planos, amanhã é o dia dos planos. Sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo. Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã’. De alguma forma, eu não sei, realmente, o que será. Estou um pouco abalado com tudo isso, não consigo pensar muito em novos projetos para depois disso. Mas é o meu sentimento, individual, não representa a classe artística como um todo. Tem muito a ser feito e é preciso, mesmo, dialogar com esse universo digital. É questão de tempo das pessoas terem motivação. Não é um ano fácil para ninguém e muitas coisas boas virão. Vivermos tempos melhores porque necessitamos da arte, não podemos diminuir seu valor, que é inestimável. Sem arte nossa vida fica bruta.

A arte é uma necessidade do homem, sem dúvida. Você acredita que, daqui em diante, o setor será mais valorizado?

É uma pandemia que, diferente de outras épocas, estar em isolamento era ficar praticamente incomunicável, sem telefone, sem muito menos internet. Imagine a angústia. Mas, agora, as manifestações artísticas, com mensagens, lives, apresentações dentro de caso, criam um ambiente intimista virtual e isso nos acalmou, nos emocionou e nos encheu de esperança. São aspectos positivos e mostra como a arte nos faz bem, ainda que nem sempre seja divertida, ainda que provoque e incomode, mas nos faz sentir e reconhecer questões tanto individuais quanto coletivas. Não tem como aceitar quando querem reduzir a arte ou o artista, que tanto bem faz à sociedade. Precisamos de saúde, educação e segurança, sem dúvida, mas sem cultura, vamos precisar muito mais saúde, educação e segurança. Sofreremos muito com a ausência de um ambiente cultural arejado. Não tenho a ilusão que, por conta deste período, as pessoas valorizarão mais, não acho, mas devemos continuar lutando, buscando ocupar espaços e se fazer respeitar.

Nesta segunda-feira (24), aliás, você tem uma participação online bastante pertinente neste debate sobre cultura.

Será um webnário, com o pessoal da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), de Minas Gerais. Conversaremos sobre o trabalho do ator na pandemia e sobre a história e vivência no teatro. Será às 19h30, via Google Meet. As inscrições para participar, gratuitas, são pelo instragram @academiadellarte.

Erick Tedesco