Sem aulas presenciais, estudantes devolvem imóveis em Piracicaba

Imobiliárias da cidade confirmam aumento na rescisão de contratos de aluguel entre estudantes. /Foto: Divulgação.

Natural do Ceará, a estudante Maria Josiell Nascimento da Silva, 25 anos, mudou-se em fevereiro para Piracicaba, onde pretendia cursar as disciplinas obrigatórias do doutorado em Economia Aplicada na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – USP). Em março, por conta da pandemia do novo coronavírus e da suspensão das aulas presenciais, ela voltou para a casa dos pais, na zona rural de Orós, cidade de 21 mil habitantes localizada a 340 quilômetros de Fortaleza. Maria chegou a pagar o aluguel até setembro, mas, em função de não haver previsão para o fim das aulas remotas, decidiu arcar com a multa e rescindir o contrato.

Não existem dados concretos sobre o número de estudantes que deixaram Piracicaba durante a pandemia, mas esse movimento foi sentido pelo mercado imobiliário do município. Ângelo Frias Neto, diretor do Secovi-SP (Sindicato da Habitação), confirma a queda brusca na locação para estudantes. Giuliano Bartholomeu Bruno, proprietário da Bartholomeu Consultoria de Imóveis, também aponta forte queda na procura por imóveis entre universitários.

Em 2019 [a pesquisa não foi realizada em 2020], conforme dados divulgados pela Esalq, dos 366 ingressantes na universidade, apenas 66 eram de Piracicaba e 69 vinham de cidades da região, localizadas num raio de até 100 quilômetros de distância. Em 2018, dos 446 alunos que entraram nessa mesma instituição, somente 103 já viviam no município. Em 2017, foram 66 matrículas de piracicabanos entre os 448 alunos aprovados no vestibular. Já na FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba – Unicamp), dos 403 matriculados, 288 são de outras cidades. Aluno do quinto ano de Engenharia Agronômica na Esalq, Gabriel Silva entregou a kitnet onde morava em julho, voltando para a casa dos pais em Franca. Gustavo do Prado Santos, aluno do quarto ano de Engenharia Agronômica, voltou para São Paulo em março, deixando de pagar aluguel quando começou a ter notícias que o ensino seria remoto. Mãe de um estudante da Esalq, Liduina Gomes de Lima disse que o filho enfrentou muita dificuldade para devolver o imóvel locado e voltar para Ribeirão Preto. “Era um quarto para duas pessoas, mas ele morava sozinho. Pagou três aluguéis antes de romper o contrato”, afirma.

Na Esalq, as aulas presenciais foram suspensas em março e a USP ainda não divulgou o calendário de 2021. No caso da FOP-Unicamp, a assessoria da universidade informa também que as aulas são remotas desde o início da pandemia e que ainda não foi definido como será o retorno. A Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) afirmou que, por conta da Lei de Proteção de Dados, não poderia afirmar quantos alunos eram de outras cidades, mas confirmou a presença de muitos estudantes nessas condições. A Unimep aguarda orientações do Ministério da Educação e das autoridades sanitárias para definir o retorno das aulas presenciais.

Última pesquisa CreciSP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo), referente ao mês de setembro, aponta que o Interior do Estado de São Paulo teve retração de 2,42% nos novos contratos de locação naquele mês. Mesmo assim, o acumulado de 2020 está positivo em 26,2%, o que, segundo a entidade, demonstra um mercado ainda aquecido.

De acordo com o levantamento, “o balanço dos nove primeiros meses de 2020 indica um mercado imobiliário repleto de altos e baixos, evidenciando todas as incertezas atravessadas pelos mais diversos setores da economia neste ano”. A pesquisa CreciSP foi realizada com a participação de 904 imobiliárias em 37 cidades paulistas, incluindo Piracicaba.

Pandemia influencia na procura por imóveis residenciais maiores

A pandemia do novo coronavírus transferiu o local de trabalho de muitos piracicabanos para dentro das próprias casas, mudança de comportamento que tem alterado a procura por imóveis no município. Ãngelo Frias Neto, diretor do Secovi-SP e presidente da Frias Neto Consultoria de Imóveis, aponta que o mercado imobiliário se encontra aquecido em Piracicaba, sobretudo em função da busca por residências maiores.

O gerente de Recursos Humanos da Arcelor Mittal, Paulo Henrique Muniz Raso, confirma que o trabalho remoto, adotado para funções administrativas como forma de diminuir o volume de circulação de pessoas durante a pandemia, deve ser mantido. “A abrangência e os critérios de como isso será operacionalizado ainda estão sendo discutidos”, explicou. Apenas em Piracicaba, a empresa conta com cerca de 500 empregados.

A Dedini Indústrias de Base também adotou pela primeira vez o home office durante a pandemia para áreas administrativas. Segundo o gestor de pessoas Walter Weckwerth Júnior, o grupo ainda analisa os resultados e a produtividade dos setores que se submeteram ao trabalho remoto, mas não descarta manter algumas áreas estratégicas em home office. No total, a Dedini conta com 1.750 funcionários.

“Depois de passarem meses fechadas em casa, sendo que algumas ainda permanecem em isolamento, as pessoas acabaram enxergando a residência de forma diferente. Houve um aumento na procura por casas e apartamentos maiores. As famílias hoje buscam comodidade e espaço, para trabalhar melhor e poder acomodar as crianças”, afirmou Frias Neto. Segundo ele, essa mudança passou a ser sentida pelo mercado em julho e deve ter reflexos ao longo dos próximos anos.

Giuliano Bartholomeu Bruno, da Bartholomeu Consultoria de Imóveis, também afirma ter percebido um aumento na procura por imóveis maiores e por casas. “Em função da pandemia, nossos clientes têm buscado mais espaço para acomodar a família”, afirmou, ressaltando que esse novo cenário de trabalho remoto também trouxe alguns clientes que viviam em São Paulo e, durante a pandemia, decidiram se mudar para o Interior.

Pesquisa do CreciSP, referente ao mês de setembro, aponta que, apesar de queda de 5,86% nas vendas naquele mês em comparação a agosto, o acumulado do ano é positivo no volume de vendas em 87% ao longo de 2020 no Interior do Estado de São Paulo. Além da mudança do perfil dos consumidores, a alta na procura também teria sido influenciada pela queda na taxa básica de juros pelo Banco Central para 2% ao ano, que impactou diretamente nas taxas de juro do crédito imobiliário.

Ana Carolina Leal
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