Sentido e propósitos da oração (2)

A oração, ao longo da história da humanidade, tem sido meio de evocar o poder divino, de mobilizar energias superiores e de servir ao bem comum. Disponível a todos, pode ser recurso valioso, desde que não se busque utilizá-la como fuga de si mesmo nem como substituto do trabalho e do esforço pessoal, e que seja usada com equilíbrio e lucidez, como alimento ou remédio para a alma. O bom senso recomenda que se evitem tanto a descrença e a indiferença quanto o fanatismo.

Nem sempre a oração se reveste da sublimidade e da pureza de intenções que seriam desejáveis, pois o conteúdo de uma prece reflete o nível de consciência de quem ora: uma pessoa imediatista poderá orar com pressa dos resultados; o egoísta será capaz de pedir aquilo que satisfaça seus desejos e caprichos pessoais; o ambicioso poderá rogar bens materiais e condicionar sua crença à conquista deles – evidências de como estamos longe de saber orar

À medida que o ser humano evolui, suas orações refletem seu crescimento interior e se revelam cada vez mais como uma sintonia e uma comunhão com a fonte da vida, da qual ele obtém harmonia, alegria e paz. Quando se amadurece e se amplia a compreensão da vida, se recorre à oração e à meditação de modo cada vez mais constante e consciente, como têm revelado todos os que avançaram no caminho espiritual. Quem atinge certo grau de amadurecimento psíquico compreende que a vida é regida por leis, e busca viver em harmonia com elas, descobrindo a satisfação de realizar as tarefas que lhe cabem, equilibrando oração e ação, como dois aspectos, interno e externo, da existência.

As religiões ressaltam a importância de orar e recomendam que se ore sempre, no entanto parece não fazer sentido passar o tempo todo pronunciando preces. Como toda instrução espiritual apresenta-se sob múltiplos aspectos e pode ser compreendida sob diversos ângulos, talvez possamos entender essa recomendação no sentido de que o viver diário represente a expressão da vida divina; talvez seja possível viver de modo tão puro e luminoso, que a própria vida se converta em oração, como um estado de constante expressão no mundo externo da realidade essencial, imaterial. Essa seria uma vida orante, dedicada aos propósitos espirituais, independentemente do movimento dos lábios, da frequência a templos de pedra, da adesão a determinadas crenças ou da submissão a autoridades religiosas.

A fé e a oração formam um conjunto indissociável e sinérgico, pois quanto mais profundamente se ora, mais se desperta e fortalece a fé. O valor da oração pode ser comprovado e sentido inequivocamente e de inúmeros modos: força nos momentos de dificuldade; serenidade nas situações mais desafiadoras; acesso à intuição para a solução das questões mais delicadas da existência; compreensão e aceitação do que não pode ser mudado; coragem para mudar o que deve ser alterado; autocontrole sobre aspectos instintivos e impulsivos; paciência e perseverança diante de problemas aparentemente insolúveis.

Indivíduos cujo legado foram palavras e ensinamentos, exemplos e realizações extraordinários, provaram que uma vida plena não significa apenas permanecer em atitude passiva e expectante diante de um Deus distante e arbitrário, mas principalmente auscultar a voz da consciência e realizar o que essa mesma consciência mostra ser o mais correto, necessário e benéfico, harmonizando com sabedoria a fé e a ação.

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