Septuagenário caipira

Foto: Pexels

Cícero Correa dos Santos, Miécio Caffé, Nino Borges, Almir Bortolassi, Manolo, Messias Mello… todos eles têm em comum a personificação artística do Nhô Quim, mascote do E. C. XV de Novembro de Piracicaba. O personagem, que completou 73 anos de vida na última sexta-feira, foi, inclusive, motivo de conscientização durante vacinação contra a covid 19.

Seus primeiros esboços surgem expostos de forma muito simples na vitrine do Chalé Paulista, casa de jogos que Armintos Raya mantinha na rua São José, próximo a praça José Bonifácio. Isso em junho de 1948. Com a ida do XV à divisão principal, o personagem toma corpo e ganha fama.

O personagem acompanha o time desde a conquista da Lei do Acesso, em 1948. Por nossa terra, em 1952, o autor do personagem, Edson Rontani, teve a oportunidade de publicar no Jornal de Piracicabaseus trabalhos caricaturados do XV, com clichês reticulados pelo jornalista e pintor Eugênio Luiz Losso. No ano seguinte, quando o jornalista Sebastião Ferraz passou a dirigir o Diário de Piracicaba, o matutino adquiriu uma clicheria e, assim, Rontani foi convidado para colaborar com aquele veículo com charges dominicais sobre o alvinegro piracicabano.

A imagem mais conhecida pelo piracicabano pode ser considerada aquela propagada em 48 anos por meio da pena de Rontani – meu genitor, artista plástico, desenhista e caricaturista falecido em fevereiro de 1997. Mas todos os citados anteriormente também deram sua contribuição. Porém, este tão querido caipira andou por outras bandas ao longo destes 73 anos de vida. Circulou pela “Gazeta Esportiva” e pelo semanário “O Governador”, ambos publicados na capital paulista.

A história de criar mascotes surge por meio dos álbuns de figurinhas, já em evidência nos anos 1930. Nino Borges inova ao criar desenhos de jogadores no lugar de fotografias. Isso ocorre no álbum “Balas Futebol”, um ícone do colecionismo, publicado de 1938 a 1960. Foi nesta publicação que as mascotes dos principais times ilustraram as páginas. Borges foi escolhido pelo fabricante das balas para desenhar os atletas. Depois entram em cena as caricaturas que personificaram estas mascotes, como a baleia ou o peixe do Santos, o mosqueteiro do Corinthians e o papagaio do Palmeiras.

“A Gazeta Esportiva” era o referencial no jornalismo esportivo, numa época em que a televisão ainda não existia no país. Messias Mello, Nino Borges e MiécioCaffé chegaram a dar formas à várias mascotes, assim como também ao Nhô Quim, em imagem semelhante ao brasileiro simplório que brigava com Getúlio Vargas em outas charges ou igual ao XV de Jaú, também representado, na época, por um caipira com cigarro, chapéu de palha e calça “pula-brejo”.

Era o brasileiro caipira, propagado décadas antes por Monteiro Lobato em Urupês, com seu Jeca Tatu, matuto descalço que lutava contra o “amarelão” e outras doenças provocadas pelas insalubres condições sanitárias do interior, em especial o tratamento do esgoto e o consumo de carne suína sem fiscalização.

Várias foram as faces de nosso Nhô Quim, muitas desconhecidas da grande maioria, até porque são raros os estudos históricos sobre isso, e também porque os principais veículos de comunicação que divulgavam estas caricaturas perderam-se com o tempo ou estão disponíveis em locais de acesso restrito, como museus, bibliotecas ou centros de estudo. O certo é que o Nhô Quim ainda representa a alma simples do piracicabano, e com muito orgulho!

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