Médico coordena a ala de covid-19 da Santa Casa de Piracicaba | Foto: Claudinho Coradini/JP

Aos 43 anos, o cardiologista Sérgio Pacheco Jr. é uma das personagens em evidência na luta contra a covid-19 na cidade, ao coordenar a ala especial para a doença na Santa Casa de Piracicaba. Dedicado à profissão e pronto para cuidar de quem precisa, também é intensivista, especialidade tão importante nesta pandemia.


Formado em 2003 pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, fez residência médica em cardiologia no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Para se dedicar mais à família, em 2010 fechou o consultório e passou a se dedicar aos hospitais da cidade. Também é especialista em medicina do trânsito.


Piracicabano de coração, nasceu em Sorocaba, morou em São Paulo e veio para a cidade em definitivo em 2006. É pai do Henrique, de 10 anos, do Rafael, de 6, e dos gêmeos Mateus e Gabriel, de 5 anos, e divide a vida com a pedagoga Raquel há 11 anos.

Na Santa Casa, onde está desde 2004, começou como plantonista do EMCOR (Emergência do Coração), passou para a UTI da Santa Casa em 2006. De 2011 a 2020 fez parte da Comissão de Ética do hospital. Em 2019, assumiu como diarista da UTI do Hospital Santa Isabel, responsável pela rotina da unidade. Em março deste ano passou a fazer parte do Comitê da Covid-19 e, com as responsabilidades aumentando, passou a coordenador da unidade da covid-19 na Santa Casa.


Para o médico, mais importante do que se preocupar em não se infectar, é agir para não levar o vírus às outras pessoas. Você conhece um pouco mais do trabalho do médico no Persona de hoje (11).

Como foi receber a responsabilidade de coordenar a ala da covid-19?
Foi uma coisa natural. Eu sempre busquei a sombra, nunca o sol. Nunca gostei de evidência de cargos burocráticos, sou trabalhador braçal, gosto de fazer o meio de campo, mas não ficar marcando gol. Fui me envolvendo cada vez mais, participei de todas as reuniões do comitê desde o início. Fui estudando muito sobre a doença. E a doença tem tudo a ver com a área de Terapia Intensiva que muita gente pensa.

Como tem sido o dia-a-dia com a doença?
Ela nos apresenta surpresas diárias. Mas isso a gente está andando consonante com o resto do mundo. Ninguém sabe mais que ninguém. Com a divisão do conhecimento, a gente hoje em dia está fazendo a mesma medicina que se faz nos Estados Unidos, ou na França, Itália, ou na Alemanha. Não tem diferença nenhuma, nem de medicamento, de nada. Aquele que tiver conhecimento e souber usar no tempo certo cada arma, e esse é o grande segredo da covid, é o que vai ter melhores resultados.

Como foi se isolar da família e contrair a doença?
Eu fiquei isolado em casa desde março. Começamos a montar o comitê, já me isolei em casa, comecei a montar um quarto e um banheiro só para mim, fazer as minhas atividades separadas da família. Eu contraí no dia 10 de julho. Já que era uma questão de tempo, as pessoas rezavam para eu não pegar, mas eu pedia para rezar para que fosse branda. O problema é que, quando a gente pega, como só vê os casos ruins, sempre tem muito medo. E o medo participa de todos os dias da doença, do antes e do durante. Mas a principal preocupação sempre foi não passar para os outros.


Tive o resultado positivo no dia 10, então cumpri 14 dias de isolamento total. Então no 15º dia, eu saí do isolamento. Tem até um vídeo que ficou famoso na internet das crianças me abraçando. Depois de cinco meses, pude abraçar meus filhos e minha esposa.

Hoje, cada volta para casa é [um] ritual por medo de levar o vírus. Eu não transmito, mas posso portar. Isso é uma consciência que todo mundo deveria. Falo, a gente conseguiria acabar completamente com a doença se todo mundo tivesse a preocupação em não passar. Todo mundo se preocupa mais em não pegar do que em não passar.

E como é o trabalho para manter a segurança dos profissionais da saúde?
É um esforço diário, tanto da instituição, quanto da gente e da comissão de controle hospitalar. O principal, nesse momento da pandemia, é, qualquer sinal, se afastar das pessoas e do trabalho. Porque o grande problema que a gente vê ainda é as pessoas não valorizarem os sintomas leves.


Existem os protocolos, que são baseados naquilo que é o mínimo para se sentir seguro. Mas tem gente que tem uma necessidade de segurança adicional, que sente que tem que trocar o avental impermeável a cada paciente. E isso é feito. Além do custo todo da doença, o afastamento do profissional também é muito caro. Ficar sem um soldado no campo de batalha é muito difícil. Cada vez que você protege o seu funcionário, você está melhorando todo o seu sistema.

Como analisa o desenvolvimento da pandemia na cidade?
A gente tem uma diferença grande no número de mortos entre SUS e conveniados. Tem mais ou menos metade da população conveniada e metade SUS. Quando a gente analisa os dados da população conveniada, dentro dos três serviços que atendem, a mortalidade é bem próxima, bem baixa, em torno de 1%. Quando a gente pega o SUS, a gente vê uma diferença. Isso soa muito mau, como se o paciente tivesse tratamento diferente, mas não tem nada disso. Muito pelo contrário. Tudo que é feito para um, é feito para outro. Não existe nenhum medicamento, exame, nada, que seja diferente no SUS, no particular ou conveniado.


O que a gente tem é uma dificuldade principalmente na triagem dos pacientes SUS, por conta tanto de informação do momento certo de ir ao pronto-socorro, então a gente vê que eles procuram o atendimento de uma maneira mais tardia, sendo que os convênios conseguem fazer o monitoramento de todos os pacientes do grupo de risco. E principalmente a qualidade do paciente. Paciente do SUS já é mais sofrido, teve menos chance, às vezes não encontrou o remédio que precisou tomar no posto, muitas vezes não consegue a consulta, quando consegue, tem dificuldade no transporte.

A Santa Casa tem feito um trabalho exemplar no combate à pandemia. Como foi desenvolver essa estrutura?
A Santa Casa tem uma mesa administrativa extremamente eficiente e faço questão de mencionar os nomes do Dr. João Orlando Pavão, provedor; Sra. Vanda Petean, administradora, Dr. Ruy Nogueira Costa Filho, diretor técnico, Dr. André Gervatosky Lourenço, diretor técnico, a enfermeira Denise Lautschenlaegger e fisioterapeuta Maura Simões, representando todo o corpo de trabalho da instituição, além dos colegas médicos que montam plantão 24 horas e do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar fantástico, representado na pessoa do Dr. Hamilton Bonilha. Fora esse corpo todo citado, há um setor específico destinado à captação de recursos. Houve um apoio muito grande da sociedade piracicabana, de parlamentares, do judiciário, do Estado e do município, com contratualizações, aportes financeiros, de equipamentos tecnológicos, materiais, equipamentos de proteção individual que nos permitiram montar uma estrutura de excelência nos equiparando aos principais hospitais do Brasil.


Com um grande esforço de todos os profissionais do hospital, montamos rapidamente, embora os planejamentos viessem desde fevereiro, quando a doença nem havia chegado direito ao Brasil, 18 leitos de UTI com respiradores, específicos para o atendimento covid e mais 28 leitos de semi-intensiva e enfermaria específicos para esse atendimento, além dos leitos que já dispúnhamos anteriormente de UTI geral e enfermaria geral. O antigo prédio de ambulatório foi transformado em Pronto-Atendimento para atender os pacientes suspeitos ou confirmados em ambiente separado dos demais doentes.


Para os 18 leitos de UTI foram formados dois corpos de plantonistas médicos que atuam 24 horas, além de dois médicos de rotina diária no setor, dois enfermeiros supervisores 24 horas e dois fisioterapeutas 24 horas, além de técnicos de enfermagem presentes dentro de cada quarto com no máximo dois pacientes por quarto, minimizando riscos de infecção dentro do setor, por não ser uma UTI aberta. Também todo caso não confirmado fica em ala própria dentro do setor, sozinho no quarto até confirmação ou descarte da doença, não misturando aos pacientes confirmados, garantindo a segurança de não se contaminar por frequentar o setor pela suspeita. E todos os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) são trocados a cada atendimento para também minimizar esse risco.

Estamos em meio à flexibilização da quarentena, como avalia esse momento?
A meu ver ainda estamos com a taxa de contaminação muito alta. É sempre muito temerosa a flexibilização sob o ponto de vista de saúde pública, pois há uma falsa impressão de que a doença está sob controle e as pessoas acabam “flexibilizando” também os cuidados, como distanciamento, uso de máscaras e álcool gel, além da lavagem frequente das mãos. A grande problemática nos números é que sempre que olhamos os mapas, estamos olhando o quanto temos de leitos ocupados hoje. Porém, os infectados de hoje terão sintomas em três a cinco dias, diagnóstico da doença em cinco a 10 dias e procurarão os serviços de saúde em 12 a 15 dias, sendo que se a cada dia temos 150 infectados (notificados) na cidade [por exemplo], aproximadamente 30 desses 150 diários terão que procurar um pronto-atendimento por sintomas mais fortes e seis a 10 serão internados. Dois a quatro irão morrer, infelizmente. E dos seis a 10 internados, os que sairão mais precocemente do hospital ficarão pelo menos 15 a 20 dias. Por isso a nossa conta é outra e geralmente ficamos pessimistas. Mas, que fique claro que não estou de maneira nenhuma menosprezando as necessidades econômicas da cidade, em especial dos empregados, comerciantes e empresários.

Estamos perto de ter um tratamento mais eficaz?
Falar em tratamento para covid é um assunto extremamente controverso entre as pessoas e até entre os médicos. À luz das evidências científicas, há comprovação de melhora na evolução com o uso de corticoides e anticoagulantes, porém, estes têm que ser usados na dose correta e no tempo correto da doença e esse é o grande “pulo do gato”. O uso equivocado na dose ou no momento pode trazer sérias complicações e, por isso, é importante o auxílio de um médico com experiência no tratamento específico da covid. Há também estudos que podem ser promissores com interferon (uma proteína já consagrada no tratamento das hepatites virais), dos inibidores de interleucina 6 (a droga tocilizumabe que é capaz de frear a “cascata inflamatória” que é responsável pela piora rápida da função respiratória nos pacientes com evolução muito grave, porém, também deprime fortemente a imunidade do paciente e pode trazer graves complicações nos casos de infecções bacterianas adjuntas) e alguns antivirais estudados para aids e ebola, principalmente.


Quanto aos medicamentos discutidos na sociedade, por exemplo, a Ivermectina, a Hidroxicloroquina e a Nitazoxanida, houve realmente inibição da replicação viral “in vitro” (em doses muito superiores à tolerância humana), porém, apesar de diversos vieses em todos os estudos (exemplo: doses e tempos errados), ainda não comprovaram cientificamente mudar o curso da doença. Isso não nos impede de receitar, de usar ou de indicar, mas, com as devidas ressalvas por não haver evidências científicas de benefício e podendo ainda haver malefício.
Quanto à vacina, acredita que temos uma ainda este ano?
Eu infelizmente não acredito na vacina disponível para imunização em massa ainda este ano. Na melhor das hipóteses, posso estar bem errado, acredito para o inverno de 2021 no Brasil. Nunca houve tanto interesse mundial na criação de uma vacina como no caso da covid. Mas esbarramos em uma série de questões burocráticas e extremamente necessárias para a segurança da população. A vacina é algo muito sério, ou seja, não há risco se ela vier dos Estados Unidos, da China ou do próprio Brasil. São muitas entidades envolvidas na legalização e na segurança e, por isso, não há perigo na obrigatoriedade dela. Os que falarão em risco, a partir do momento de que o mundo aceitar a distribuição das vacinas, são conspiradores.

Uma nova preocupação é a reinfecção. Como avalia que ela impactará a pandemia?
Essa é realmente uma preocupação mundial, pois, há relatos raros, mas há, de paciente com potencial reinfecção. A preocupação começa no momento em que ninguém garante se a imunização se dá por meio de imunoglobulinas, o famoso IgG que todos buscam, ou linfócitos T, ou ambos. Nos três grandes hospitais da cidade [até começo de setembro] houve suspeitos de reinfecção. Em Piracicaba não foram nem cinco casos até agora e não conseguimos comprovar realmente se foi reinfecção, se foi uma recaída da primeira infecção em pacientes que não tiveram resposta imune adequada, ou se foi uma gripe paralela com sintomas semelhantes em pacientes que ainda guardavam partículas virais em seu sistema respiratório. Não conseguimos ter essa certeza porque o RT-PCR (conhecido como exame do cotonete, padrão ouro no diagnóstico da Covid) analisa o RNA do vírus presente nas mucosas da orofaringe e nasofaringe, ou seja, não dá para saber se ali está um vírus inteiro ou parte dele, neste caso, incapaz de promover infecção, contaminação ou doença. Esses casos suspeitos de reinfecção estão aparecendo no Brasil e no mundo, mas, ainda não se sabe a verdade sobre os fatos. Dado muito importante é que Piracicaba tem mostrado uma taxa de sucesso no combate à doença com índice de mortos inferiores a grandes potências mundiais. Portanto, se cada um cuidar de si e do próximo, teremos dias cada vez mais tranquilos. Vejo, como o mais fundamental, não se descuidar, mesmo após ter a doença, pois, mesmo que a pessoa não possa mais transmitir o vírus, ela pode portar o vírus em sua roupa, em sua pele e o levar às outras pessoas. Daí a importância do distanciamento social na contenção. Se cada um se preocupar em não contaminar outras pessoas, a doença acaba.

Andressa Mota

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