Sob Bolsonaro, registro de armas de fogo dobra em Piracicaba

Foto: Divulgação.

A aquisição de armas de fogo entre os piracicabanos mais que dobrou desde a posse do presidente Jair Bolsonaro. Em 2018, haviam sido expedidos 217 registros pela Polícia Federal no município. No ano passado, esse número saltou para 372, chegando a 455 até setembro deste ano.

Os dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm) não incluem os armamentos adquiridos por órgãos militares estaduais de segurança, nem pelas Forças Armadas ou por colecionadores, atiradores e caçadores, cujo controle é de responsabilidade do Exército. O levantamento obtido pelo Jornal de Piracicaba diz respeito apenas a autorizações para pessoas físicas. Neste caso, a permissão é para a posse de armas, que devem ser mantidas em casa ou no trabalho.

A psicóloga Ana Carolina Carvalho Pascoalete, credenciada na PF para realizar a avaliação que autoriza o manuseio de armas de fogo, confirma que a procura por armamentos tem aumentado de maneira significativa desde o final de 2018, quando o tema foi bastante debatido na campanha presidencial. Ela ressalta, ainda, que essa procura está associada à busca pela sensação de segurança entre a população, seja para a proteção de familiares ou do próprio patrimônio.

Carla Villela, instrutora de armamento e tiro, também percebeu aumento na procura pelas aulas dela nos últimos dois anos, inclusive entre o público feminino. “Não basta você ter uma arma em casa e não saber o que fazer em uma situação de risco”, explica. Para Carla, esse crescimento se deve à ampliação do debate sobre o tema nos últimos anos e às flexibilizações das regras para posse e porte de armas a partir de 2019. “O pessoal está perdendo aquele receio que nos foi incutido pelo desarmamento. Eu acho isso esplêndido, uma arma nas mãos de pessoas boas só tem a nos ajudar”, afirma.

A elevação na demanda por revólveres e pistolas também foi percebida por Antonio Ezio Moreira Filho, proprietário da Casa Americana Caça e Pesca. “O principal motivo é a liberação de alguns calibres que antes eram proibidos para cidadãos comuns, como o 9mm, o .40, o .45 e o .357 Magnum”, explica o empresário, que pretende inaugurar, em dezembro deste ano, um clube de tiro indoor em Piracicaba. Com 750 metros quadrados de área construída e 10 boxes para a prática de tiro, esse espaço deverá contar com ambiente climatizado, além de praça de alimentação, loja de acessórios e sala de treinamento. Assim que estiver em funcionamento, o local deve gerar cinco empregos diretos e outros 15 indiretos.

Comemorada entre os defensores do armamento, que apontam o direito à legítima defesa e ressaltam que “é preferível ter uma arma e não precisar, do que precisar e não ter”, a flexibilização nas regras para posse e porte no país tem preocupado pesquisadores da área de segurança. “O que a gente observa na literatura internacional e, especialmente, no que cabe ao cenário brasileiro, é que o aumento no acesso a arma de fogo leva a um crescimento nos índices de homicídio e de violência armada”, afirma Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz. Segundo ela, a arma de fogo traz a falsa sensação de segurança, porque é pouco provável que, no momento de um crime, a vítima esteja com uma arma ao alcance, municiada e pronta para o disparo. Além disso, ela também destaca que essas armas podem ser usadas num momento de descontrole emocional, seja contra um cônjuge, um vizinho ou até numa briga de trânsito.

José Vicente da Silva Filho, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário Nacional de Segurança Pública, acredita que, em longo prazo, quando muitas pessoas tiverem mais armadas que o usual, pode haver aumento na violência, principalmente se essas armas forem parar na mão de criminosos, seja por furto, roubo ou extravio. Ele também aponta que mais armas dentro de casa aumentam o potencial de incidentes, inclusive, de suicídios. No entanto, o policial ressalta que a região de Piracicaba dificilmente terá um impacto perceptível nos primeiros anos. “Quando comparamos com outros Estados e outras regiões do Brasil, o local é muito tranquilo. Então, não há motivo, pelo menos por enquanto, para se preocupar”, conclui.

Ana Carolina Leal
[email protected]

LEIA MAIS:

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite o seu comentário!
Por favor, entre com seu nome

vinte + sete =