Sob pressão, professores da rede estadual estão sobrecarregados

Nova realidade tem causado esgotamento emocional. (Foto: Claudinho Coradini/JP

A pandemia evidenciou muitos desafios na educação. Professores da rede estadual precisam praticar a busca ativa pelos alunos, atendê-los via redes sociais, preparar, gravar ou dar aulas ao vivo, além de entregar relatórios semanais. Isso em meio ao isolamento social, que acarreta também dificuldades na vida pessoal e na saúde psiquicoemocional da população. Ser professor por si só para eles não é um peso, mas a angústia ao ver a defasagem do aprendizado e a sobrecarga de trabalho tem deixado esse momento ainda mais difícil.


“É complicado, a rotina é totalmente outra, antes você tinha um horário […] agora não, você tem obrigações todos os dias, independente se você desse aula todos os dias ou não. Tem dia que a gente está atendendo aluno 16 horas por dia, final de semana”, relata Camila Rigitano, professora de história e filosofia nas EE Prof. Helio Nehring e Profa. Catharina Casale Padovani.

Para ela, o conteúdo das aulas do CMSP (Centro de Mídias da Educação de São Paulo) não prioriza todas as disciplinas e os alunos que têm acesso não conseguem acompanhar a linguagem diferente da que estavam costumados. Isso a preocupa, uma vez que muitos tentarão o ingresso no ensino superior.

A professora também relata que até as últimas semanas havia a corda bamba de ter o salário diminuído. “A gente tinha que fazer um semanário, toda semana tinha que estar lá no e-mail da escola, com ameaça de sem ele nosso pagamento não iria sair”, conta.

Para a professora de matemática Nathália Garcia, da EE Prof. Manasses Ephrain Pereira, os primeiros 15 dias de ensino remoto também foram sobrecarregados, mas conta que conseguiu organizar a rotina. E mesmo com êxito nas aulas via Zoom, se preocupa com os 25% dos alunos que não acessam as aulas online. Desses, 5% também não conseguem fazer as atividades impressas, pois precisam cuidar da casa e dos irmãos.

“O conteúdo do ano recorrente quase não foi abordado […] agora está sendo remoto, mas não é igual, infelizmente. Embora a gente está bem feliz com o resultado, eles dão devolutiva”, comenta Nathália.

O professor de filosofia e sociologia Fabrício Henrique de Oliveira, da EE Prof. Helio Nehring, observa que a escola pública está aquém das inovações tecnológicas, por falta de recurso e estratégica pedagógica. Espera que após a pandemia consiga usar mais a tecnologia nas aulas para incluir os alunos. Para ele, pior do que a sobrecarga de trabalho é ver a desigualdade social que atingiu seus estudantes sem as aulas presenciais. Muitos estão trabalhando para ajudar em casa no período das aulas e Fabrício tenta adaptar seus horários para que esses também assistam às reuniões.

Professores que preferiram não se identificar por medo de represálias relatam ainda pressão das escolas. “O que estou sentindo nessa época de pandemia é que a fala do secretário está sendo não prejudicar os alunos. Só que quando chega na escola a gente está tendo muita pressão. A equipe gestora quer que entre o maior número de alunos. Na reunião […] com os pais ficam pressionando que tem que assistir às aulas e que vai ter reprovação. […] E a pressão também recai em cima da gente, que vai cortar pagamento se não entregar tal coisa”, relata uma professora.

“Está muito difícil, no próprio grupo está tendo dificuldade de tirar dúvida. […] Você tem que ficar 40 e a internet cai nos 20 minutos, falam ‘você não ficou até o final, vai ficar com falta’”, conta outro professor.

A presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) e deputada estadual, professora Bebel (PT) informou que tem conhecimento de relatos de ameaça de corte de salários, que isso não será aceito e que se ocorrer haverá denúncia.

A Seduc-SP (Secretaria de Estado de Educação) informou, por meio do subsecretário de articulação regional, Henrique Pimentel, que os professores não precisam ficar à disposição para tirar dúvidas e orientar atividades além da carga horária. “Não precisa ficar o dia inteiro no aplicativo”, disse.

Pimentel também afirmou que apenas falta não justificada “acarreta em redução de pagamento” e que não houve tempo hábil de disponibilizar celulares e computadores para os 150 mil professores da rede estadual durante a pandemia, mas que a internet é subsidiada.

Andressa Mota

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