“Somos todos iguais”

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Armando Alexandre dos Santos
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

O Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, com apoio da SemacTur, lançou nesta semana o livro “Somos todos iguais”, de Maurício Fernando Stenico Beraldo e Paulo Renato Tot Pinto, sobre o Cemitério da Saudade, o mais antigo ainda em funcionamento de nossa cidade. É obra de grande importância para a preservação da memória coletiva piracicabana.

Os cemitérios, ademais da dimensão religiosa e simbólica, a da sua evidente utilidade e funcionalidade prática, são também espaços culturais privilegiados para os estudos históricos, sociológicos, antropológicos, genealógicos, artísticos e econômicos de uma sociedade humana.

O respeito e o cuidado dos mortos é constante em todas as sociedades e em todas as culturas, desde a mais remota antiguidade. A ideia das cinzas dos antepassados, incorporadas à terra em que vivem seus descendentes, é algo antropologicamente assentado nos costumes e tradições de todos os povos. Revestia-se no passado, frequentemente, de um caráter de culto pela memória dos ancestrais, reverenciados pelo que tinham sido e pelo que significavam para os seus descendentes.

Lembro que me impressionou muito uma passagem do clássico livro “A cidade Antiga”, de Fustel de Coulanges, que analisa a formação das sociedades primitivas na Grécia, em Roma e na Índia. Tal era o respeito que entre os antigos se tributava aos antepassados, que quando alguém se afastava da terra natal em demanda de outras regiões, para fundar novas comunidades políticas, era costume levar, num vasinho, um pouco de terra do local em que nascera e onde estavam sepultados os antepassados. Essa porção de terra, levada com respeito, era também depositada no local em que se erigiria a nova fundação, para que, de certa forma, pelo menos simbolicamente, algo das cinzas dos antepassados se transferisse para o novo local, e a continuidade daquela estirpe fosse mantida.

As catacumbas romanas também tiveram origem, segundo algumas teorias, nesse culto respeitoso dos Manes, isto é, as almas dos ancestrais falecidos. Fazia parte dos costumes dos primeiros romanos que os membros de uma família fossem sepultados dentro dos limites do próprio lar. Costumava-se por isso escavar, dentro da própria urbe romana, por baixo das casas ou dos palácios, túneis em níveis diversos de profundidade, para em suas paredes sepultar os membros daquela família. Cada família vivia, assim, no sentido mais estrito do termo, sobre o cemitério em que jaziam seus antepassados, sem sair dos limites territoriais do lar. Ao cabo das gerações, inevitavelmente esses condutos subterrâneos se comunicaram uns com os outros e constituíram uma vasta rede de galerias que com o passar dos tempos perdeu a primitiva significação, mas na qual a Igreja perseguida, nos primeiros séculos da Era Cristã, encontrou abrigo seguro, na qual sepultou seus mártires e que até hoje é visitada com comovida veneração por peregrinos que acorrem à Cidade Eterna.

O testemunho da História ensina que quanto mais uma sociedade respeita e valoriza seus cemitérios, tanto mais se pode afirmar que ela é culta, requintada e ascendente. Desprezar e desconsiderar seus cemitérios é, para qualquer sociedade, sinal certo de que está em fase de decadência, rumando para o fim.

Que Piracicaba se preocupe com seus mortos, que reverencie, preserve e divulgue seu mais tradicional cemitério a ponto de seu Instituto Histórico e Geográfico, com apoio da administração municipal, estar lançando uma obra produzida por dois jovens historiadores, é, felizmente, sinal de vitalidade, sanidade e pujança cultural. Estão de parabéns os autores, como também estão de parabéns a Profa. Valdiza Caprânico (presidente do IHGP no período em que foi aprovada e decidida a edição desse livro) e o Dr. Pedro Vicente Ometto Maurano (atual presidente, sob cuja administração se realizou o lançamento).

O título “Todos somos iguais” é tradução do dístico latino OMNES SIMILES SUMUS, que figura no portal de entrada do cemitério. É na morte (e só na morte) que todos os homens são iguais… Por mais que a igualdade seja apregoada, por mais que as legislações modernas a professem e instituam como cláusulas pétreas constitucionais, o fato inelutável é que os homens nascem em condições sociais, culturais e econômicas muito diferenciadas. Vivem, igualmente em condições diferenciadas, todos evidentemente dispondo de seu livre arbítrio, mas influenciados e condicionados por múltiplos fatores de diferenciação. E após a morte, seguirão também, numa perspectiva religiosa, destinos diferenciados por toda a eternidade. E mesmo numa perspectiva humana, também é diferenciado o destino post mortem: uns serão lembrados e celebrados, outros serão rapidamente esquecidos.

Num único instante todos nós somos, sem sombra de dúvida, iguais: é na hora da nossa morte. Nesse momento supremo e decisivo das nossas existências, pelo qual todos nós, homens ou mulheres, ricos ou pobres, haveremos de passar, realmente “omnes similes sumus”.

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