“Tanto a cúpula como a luneta foram vendidos para o Museu Aberto de Astronomia de Campinas”

Ele foi diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum até o ‘apagar das luzes’, quando, em julho deste ano, a prefeitura parou de transferir verba. Nesta entrevista, Nelson Travnik, conta detalhes sobre como o equipamento de educação e ciência sofreu um processo de desmonte até a venda do telescópio alemão e da cúpula a Campinas. O astrônomo está com 86 anos e tem um currículo extenso, como a fundação do Observatório Astronômico Flammarion (1954) e atuação em instituições com a mesma finalidade em Campinas e Americana. Dono de vários prêmios como a Medalha Mérito Santos Dumont, ele empresta seu nome ao observatório da Fundação Douglas Adriani. Participou como observador credenciado pela NASA JPL (Jet Propulsion Laboratory) e pelo Smithsonian Institution para o Programa de Monitoramento da Lua durantes as missões Apollo 8 a Apollo 13. Em outubro desse ano, Travnik foi convidado a trabalhar no Museu Aberto de Astronomia Pico das Cabras. Seu nome consta do “Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica”, 2ª edição, de Ronaldo Mourão, editora Nova Fronteira.

O Observatório dirigido pelo senhor era conhecido pela ótima localização e seus telescópios de longo alcance. Fale um pouco sobre a relevância da estrutura que tínhamos aqui.

Quando se trata da localização de um observatório astronômico é imperioso considerar alguns aspectos importantes: observatórios pedagógicos e observatórios de pesquisa. O primeiro é implantado próximo à cidade para facilitar o acesso das escolas, da população e dos turistas. Sua finalidade é de fornecer subsídios para o que consta no currículo escolar e cursos de introdução a astronomia, capacitando os alunos a empreender modelos pedagógicos para compreensão dos fenômenos astronômicos e geodésicos. Isso permite aos mesmos, encetar trabalhos para as Feiras de Ciências e participação na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, OBAA, patrocinada pelo Governo Federal. Os segundos são observatórios instalados em locais elevados, livres de quaisquer tipos de poluição luminosa e atmosférica, destinados exclusivamente para a pesquisa. No contexto do Observatório Astronômico de Piracicaba Elias Salum, OAPES, sua localização é considerada excelente para as suas finalidades. Importa saber que os observatórios municipais mais próximos de Americana e Itatiba estão dentro da cidade bem como o Observatório da Universidade Federal de São Carlos e nem por isso deixam de cumprir seus objetivos. O Observatório de Piracicaba era completo em todos os seus aspectos com quatro telescópios, recursos audiovisuais, painéis, posters, biblioteca e modelos práticos. Sua área externa compreendia o Pavilhão de Observações com três telescópios destinados a observação solar e noturna. Outra atração era o Museu do Tempo com cinco diferentes modelos de relógios de Sol, um deles único no País, possuía um canhão que dava tiro quando o astro rei cruzava o meridiano local. No prédio principal, encimado por uma grande cúpula de cinco metros de diâmetro, encontrava-se a luneta alemã marca Steinheil, a segunda maior do Estado. Instrumento profissional, permitia também encetar trabalhos científicos quando exigidos. Tanto a cúpula como a luneta foram vendidos para o Museu Aberto de Astronomia de Campinas. Anualmente, o Observatório abria as portas para a população participar de várias atividades no contexto da Semana Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCT) que será realizada esse ano de 3 a 10 de dezembro e, pela primeira vez, o Observatório estará ausente.

Conte sobre os projetos relevantes nas áreas da ciência e educação que foram desenvolvidos ao longo dos quase 30 anos.

Foram inúmeros os projetos nas áreas da ciência e da educação. Na área científica, pontificaram a participação do Observatório em todos os Encontros Nacionais de Astronomia, ENAST; nos eclipses totais do Sol de 1994 em Treze Tílias, SC; no de 1999 em Gmundem na Áustria; e em 2006 em Natal, RN. Com repercussão nacional, foi a primeira fotografia obtida no País da cratera Santos Dumont na Lua em 1996 com direito a receber no Museu Alberto Santos Dumont na cidade mineira de Santos Dumont, em 2015, a Medalha de Mérito Santos Dumont. Com repercussão internacional, foram os registros dos impactos do fragmento “L” do cometa Schoemaker-Levy no planeta Júpiter em 1994; registro fotográfico da Nova Velorum em 1999 e do trânsito do planeta Vênus pelo disco solar em 2004. Na área educacional, foram os projetos “Astronomia nas Férias”; “Educação com Descontração”, “Assim na Terra como no Céu” e “O Observatório vai as Escolas”. As atividades pedagógicas realizadas pelo observatório foram julgadas referência no Estado de São Paulo. Foi feita uma publicação especial sobre esse trabalho do observatório

Com o fechamento do equipamento público, comente sobre as perdas para cultura, ciência, educação e o turismo de Piracicaba.

O Observatório era o único contato presencial para a população conhecer o que acontecia no céu e no espaço. No momento em que essas áreas são essenciais na vida moderna, sendo continuamente destaque nos meios de comunicação, não ter acesso a elas é colocar a população divorciada do que acontece no mundo dessas ciências. É como sentir-se trafegar numa auto estrada com um biga romana. O observatório era uma das principais atrações que a cidade oferecia, estando presente em todas as publicações turísticas. E o que era cobrado em outros observatórios, em Piracicaba era tudo gratuito.

A degradação ou inviabilização do observatório começou de que forma? Quais as iniciativas eram possíveis combater o vandalismo a abandono do local?

A degradação do Observatório começou no início da pandemia, em março de 2020, com furtos sucessivos, algo que só uma única vez aconteceu nos quase 30 anos do observatório. A Secretaria Municipal de Educação foi informada sobre os assaltos, foram realizados boletins de ocorrência, contudo, nenhuma medida foi tomada para evitar as invasões como a presença de um guarda noturno. Com risco de serem furtados equipamentos, modelos pedagógicos, livros e recursos áudio visuais, tudo foi retirado e guardados em locais seguros. Importante: o prédio bastante danificado com os furtos e necessitando reforma, foi visitado pelo Assessor Especial de Projetos da Secretaria, Mauricio Fernando Frias, que, de posse de uma relação de intervenções necessárias, compiladas por um astrônomo voluntário do observatório, juntamente com o engenheiro de uma empresa, elaborou o projeto da reforma que o prédio exigia. O orçamento foi feito e estava sendo aprovado bem com a renovação do Contrato da Locação de Equipamentos e Serviços Especializados em Astronomia exercidos desde a inauguração do observatório pela firma Urânia de Campinas. Isso tudo foi aprovado durante a gestão do Secretário de Educação, João Marcos Thomaziello, segundo o qual “o observatório era muito importante para a educação e a cidade”. A saída do secretário e sua substituição por Gabriel dos Santos Ferrato, deu uma guinada violenta nos planos estabelecidos. Este, investido no cargo, já veio com a intenção de desativar o observatório apresentando motivos tais como: deterioração do prédio; local impróprio para um observatório, fechado pela pandemia e que os caminhões passando pela rodovia (a 200 metros) provocava oscilação nos instrumentos algo que nunca foi constatado nos quase 30 anos de existência do observatório. Para evitar o fechamento, havia algumas propostas para serem avaliadas. Contudo, não me foi possível apresentá-las uma vez que, por cinco vezes, me foi negada uma reunião para tratar do assunto. Isso foi a pá de cal nessa tentativa e não foi surpresa do arquivamento do contrato com a minha firma, decretando o fim do observatório.

Sobre o acervo entregue ao IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), a prefeitura informou desconhecer que tipo de documentos estavam guardados no local. Se o senhor não retirasse esse material do observatório, quais informações poderiam estar em risco?

Após quase 30 anos, nem nós sabíamos quais documentos estavam na Pedra Fundamental. O prédio, invadido pelas chuvas, colocava em risco a perda desses documentos. De comum acordo, resolvemos resgatá-los e encaminhá-los ao IHGP, guardiã da história da cidade para sua guarda provisória. Após reunião na sede do instituto, resolvemos de comum acordo, entrar em contato com a prefeitura que terá a responsabilidade guardar esses documentos no Arquivo Geral, colocando-os à disposição dos interessados para consulta.

Agora vamos voltar ao passado: conte como foi a articulação da Associação dos Amadores de Astronomia de Piracicaba, incluindo sua participação, para viabilizar a construção do Observatório. Também fale um pouco sobre Elias Salum, que deu nome ao equipamento.

Tudo que se refere a criação do observatório, foi iniciativa da Associação dos Astrônomos Amadores de Piracicaba, fundada pelo incansável e idealista professor Elias Salum. Sobre o projeto da criação, minha participação foi manter o contato com a associação, promovendo palestras na cidade e outros eventos, como o da ‘Astronomia na Praça’ com telescópios a disposição do público para observação dos astros em evidência. Quando do apoio do ex-prefeito José Machado ao professor Salum na criação do observatório, ofereci o projeto de construção e todo o material que se fazia necessário como a cúpula, instrumentos, bibliografia básica, alguns modelos pedagógicos e recursos áudio visuais. Isso foi decisivo para a construção e inauguração do observatório em outubro de 1992. Nada mais justo que após o falecimento de Salum o observatório recebesse seu nome. Em 2022, comemorando os 30 anos de fundação, aproveitaria meu ótimo relacionamento com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos César Pontes, para requisitar a doação de um planetário para a cidade.

O que espera de um novo observatório prometido pela prefeitura e qual chance deste novo projeto consolidar até o fim da atual gestão do prefeito Luciano Almeida (DEM)? O senhor tem sido consultado pela administração municipal sobre o assunto?

Assim como para mim, é opinião geral que, pela sua complexidade, não ocorrerá na atual gestão. Isso será sempre intensivamente cobrado pela população e certamente usado pela oposição no caso de o prefeito aspirar uma reeleição. Minha pessoa não foi ouvida para evitar o fechamento do observatório e, por conseguinte, não desejo mais tratar desse assunto. Conheço pessoas na cidade, como os astrônomos voluntários do observatório, que poderão fazê-lo.

Qual o sentimento, como profissional e pessoa, diante do fechamento do observatório?

Meu pensamento é de indignação da maneira como ele foi fechado. Tomo minhas as palavras do ex-prefeito José Machado em sua manifestação: “atitude absurda e cínica”. E complementaria: um atentado a cultura, ciência, educação, turismo e lazer da população.

Como a senhor analisa os investimentos feitos em ciências por parte do poder público, do federal ao municipal, nos últimos anos? O setor foi abandonado ou ainda pulsa firme?

Como é público e notório, as despesas gigantescas com a pandemia do covid-19 motivaram redução de verbas em ciências e outros setores, como a cultura, e isso em todo o mundo. Mesmo assim, o setor não está abandonado e a instalação, entre outros, do projeto Sirius em Campinas, com o maior acelerador de partículas da América Latina, prova isso.

Para os que pretendem estudar astronomia, quais são suas dicas?

Participar dos cursos que são oferecidos pelos observatórios e planetários de Americana, Campinas, Itatiba e Amparo mediante pagamento de taxa de inscrição. Em Piracicaba, o observatório os oferecia gratuitamente bem como a visitação das escolas e do público.

Cristiane Bonin
[email protected]

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