Há, na madrugada, enquanto escrevo, um bem-te-vi que canta. Não me vê, mas saúda com alarde, num trinar sonoro, a mim e a quem se disponha ouvi-lo, fazendo-me saber de sua alegria ao amanhecer reencontrando outros pássaros no espaço onde vive. Dentre tantos gorjeios, os bem-te-vis respondem, celebrando a vida.

Copio, nesta manhã, o pássaro e afirmo que bem-te-vejo, leitor, neste limiar de 2020. Bem-te-agradeço a leitura generosa, bem-te-quero neste semanal encontro nosso e bem-te-agradeço com as mensagens que me envia ou quando se encontra comigo falando a respeito.

Apesar do alegre cântico matinal, preocupa-me o pobre pássaro, visitando meu bairro à procura de comida e espaço onde possa estar, já que a mata, moldura para nossa cidade, os alegres campos, as verdes colinas e os espaços rurais, por culpa do homem, despedem-se deles que lhes dão beleza maior à vida, pobres seres indefesos, por ganância, ambição e maldade.

2020 se anuncia em meio a fogos, cor e música. As pessoas se saúdam umas às outras, cantam, vibram como se chegara tempo de fraternidade e paz. Esta atmosfera efêmera, durará até o primeiro noticiário do novo dia manchado de sangue, dor e indignação ainda maiores que o de todos os dias anteriores ao da passagem para o fim da década.

Também me surpreendo com a ligeireza, ao reconhecer terem passados dezenove anos do novo século sem que me desse conta do tempo decorrido. Se me ponho atento, sinto que mal percebi o já vivido. Penso quão pouco me falta. E me prendo à saudade já sabida, como se me antecipasse a este sentimento melancólico a rodear-me coração e mente. Os acontecimentos registrados na memória tocam fundo, sugerindo repetição e provocando medo. Não da indesejada, mas da separação que causa.

Nenhuma transformação no cenário cotidiano. Que mal fazem a si próprios e aos outros quem aparenta momentânea felicidade, como se, por um momento, estivessem solidários uns aos outros, para, minutos mais, já se terem esquecido de tudo. Na hora zero, em meio ao encantamento provocado pelos fogos, o ruído de rojões, as canções em altíssimo tom, o mundo parece viver um só instante de alegria e êxtase para desabar no minuto seguinte desfeito o “make-up”.

A gritaria, a confusão de vozes, a agitação ruidosa parece desconhecer o descaso que a história relata ou a divisão de classes determinada pela condição social.

Fosse verdadeira esta demonstração de afeto poderia supor falsos os difíceis acontecimentos anteriores. Que nada! A maquiagem parece feita para acreditar na mudança que nunca ocorre. O medo do desconhecido, este, no entanto, se cristaliza.

Antes de despedir-me, faço aqui um aceno: Se tens certeza do bem que propagas/ oferece bons votos de Ano Novo./ Será novo, como o sol da manhã, / se novo te sentis./ Vê bem:/ É sempre o mesmo sol/ que faz de cada dia, um novo dia/ iluminando tudo./ Se assim é, renova as esperanças/ e recupera da infância/ todos os bons motivos de alegria./ Ao traçares, então, os teus caminhos,/ na solidão ou no meio do povo,/ não hesites./ Propaga o que o coração dita/ e deseja a quem puder um Feliz Ano Novo!

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