Tese de doutorado na Esalq analisa migração e desigualdade racial no Brasil

De Minas Gerais, Josimar está em Piracicaba há 20 anos. (Crédito: Claudinho Coradini/JP)

Para Josimar Gonçalves de Jesus, a escola sempre foi um ambiente para expandir sua liberdade, seja tendo acesso a uma alimentação mais diversificada ou um espaço para brincar com outras crianças. Há 20 anos em Piracicaba, é de uma família pobre do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais. Aqui, mora no bairro Tatuapé II e viu na educação, desde pequeno, novas possibilidades de olhares sobre ele. É um fruto da educação pública que defende hoje sua tese de doutorado na Esalq/USP, com a temática de migração e desigualdade racial no Brasil.


A banca de Jesus para obter o título de doutor em Ciências, na área de economia aplicada, é aberta à comunidade a partir das 13h, na sala de concursos número 3 do Serviço de Pós-Graduação, ao lado da Biblioteca Central do campus.


Na tese de doutorado, ele buscou responder as perguntas de até que ponto a desigualdade entre brancos e negros é condicionada pela desigual distribuição dos indivíduos no mercado de trabalho e de que forma os fluxos migratórios de 1995 a 2015 têm impacto sobre o rendimento de negros e de brancos.


“Esse é um processo histórico e está associado sobretudo à forma como o Brasil se desenvolveu economicamente […] onde como resultado você tem uma concentração da população negra nas regiões menos desenvolvidas do país e uma concentração da população branca nas regiões mais desenvolvidas”, explica. “Nossa hipótese inicial foi a de que a migração teria um efeito maior no rendimento dos negros quando comparado ao dos brancos”, completa Jesus. A hipótese foi confirmada ao longo do estudo.


Para a análise, foram usados dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), feita anualmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com informações como renda, cor e migração. Como metodologia foi utilizada a “equação de rendimento”, uma função matemática que permite associar a renda do indivíduo com suas características sociais.


Em Piracicaba, Jesus estudou da 2a série do Ensino Fundamental até concluir o Ensino Médio na E.E. Jethro de Vaz de Toledo. “Eu enxerguei nos estudos uma forma de compensar aquele olhar que tinha sobre mim. […] Apesar desse modelo de educação vigente que não nos incentiva a pensar de forma crítica, a escola para mim foi um lugar maravilhoso”, avalia.


Ao se dedicar aos estudos, o garoto de afeiçoou às áreas de história e matemática, encontrando então no curso de economia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Araraquara uma forma de entender o mundo e aplicar suas habilidades. “Estudar economia foi uma coisa estupenda, maravilhosa, porque aquela leitura que eu tinha da realidade eu pude amadurecê-la, entender sobre as injustiças sociais, como funciona o mercado, inclusive entender sobre mim e minha família, porque a gente era pobre”, comenta.


A partir disso, no mestrado e doutorado em economia na Esalq, focou em analisar a distribuição de renda no Brasil, ambos com a orientação do professor Rodolfo Hoffmann. “Atribuo muito a minha formação […] sobretudo às pessoas que eu encontrei ao longo deste processo e me ajudaram”, conta. “Minha história pode servir de inspiração, mas nunca de justificativa de alguma forma de que aqueles que não chegaram onde eu cheguei em termos acadêmicos não o fizeram porque não quiseram, acho que eles não fizeram por questões muito mais profundas”, pontua.


Após a defesa, a tese estará disponível na Biblioteca Digital da USP, pelo site www.teses.usp.br.

Andressa Mota

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