Thiago de Mello, o homem, a floresta, palavra, luz

A morte do poeta Thiago de Mello despertou-me para um dos muitos sonhos tidos quando professor. Numa tarde, chamado que fui por um dos colegas que dirigia instituição e contava com meu respeito, soube por ele que o pai de um de meus alunos havia estado na escola recomendando não fazer da obra de Thiago de Mello um canto de liberdade, tanto realce oferecido, dando-lhe brilho excessivo e valor exagerado. Por estes tempos, os pais começaram a opinar no exercício pedagógico sem que dele entendessem.
Entusiasmado que era com sua atuação pedagógica, mesmo sabendo ser divorciado de quaisquer filosofias de educação, supus difícil negociação em meu favor. Tinha, no entanto, algum prazer por ciências humanas e gostava, sobretudo, de poetas, fato que lhe dava vantagens pessoais com alunos e professores ao dizer, com certa eloquência, versos, por onde andava nos quatro cantos da escola. Devoto dos parnasianos, cantava seus sonetos. A admiração pelo colega me impediu de contestar com veemência o que me pedia, mas não deixei, por conta e risco próprio, de seguir dando informações a respeito do poeta e de sua obra, em especial Os Estatutos do Homem, escritos em abril de 1964, em Santiago do Chile, onde se exilara depois do golpe militar.
Como tirar de jovens brilhantes em sua maioria, a oportunidade de conhecer, ao menos conhecer, alguém que pensa a terra, o povo, a fome a natureza que o rodeiam como coisa sua, passível de transformar-se sem alterar o que deve ser preservado e dar à gente do lugar, na expressão do verso, a dignidade a ser, por direito, reconhecida?
Insistia, à luz de Thiago de Mello, na importância de respeitar opiniões e as diferenças, mesmo que contrários a elas. E, nos comentários feitos em sala de aula, por abreviar a lição, permitia que entrevissem a razão de reduzir conteúdo com um verso do poeta: faz escuro, mas eu canto!
Sabia incomodar porque filhos nem sempre revelam o contexto em que se dá o texto e muitos pais se atemorizam se pressentem que filhos possam descreditar de seu poder em comprar os sóis de manhãs vindouras. Este, um dos sonhos que acalentava: vê-los entender que nas manhãs vindouras haveria sóis para todos. Por muitos deles, pelo que me escrevem, sinto ter valido a pena.
Ter-lhes dado a oportunidade de abrirem-se para o mundo e para a arte, enriquece-me o espírito. Sem roubar nada de sua formação, queria despertá-los para esta atividade filosófico-científica. Conhecer diferentes autores, empaparem-se de distintas ideologias. Tratava de mostrar-lhes ser papel preponderante da escola enriquecer o espírito humano. Neste contexto, Thiago de Mello, por ser contemporâneo, importava sobremodo por dar visão do seu momento histórico permitindo entender, perceber, sentir, como pode, até hoje, ser sentido, o sombrejar imposto pelo medo, desdourando a inteligência, limitando pensamento, obstruindo o discernimento.
Este meu desejo incontido de ver meus alunos concordando ou discordando deste ou daquele escritor, desta ou daquela ideia, mas pensando, sobretudo pensando, e fazendo valer sua opinião. Ou não seria esta, a transformação a ocorrer durante a formação escolar? Saber, saber ser, aprender, entender seu momento em relação a outros momentos, analisar, questionar, evadir-se de possíveis engodos que tentem fazer do ser humano um objeto alheio à verdade de seu tempo.
“Não tenho o sol escondido no meu bolso de palavras. Sou simplesmente um homem para quem já a primeira e desolada pessoa do singular – foi deixando, devagar, sofridamente, de ser.”
O poeta há de entender a razão de prosificar seu verso. Preciso dizer isto, já que tenho, embora não consiga revelar quanto, menos ainda tanto, o sol escondido no meu bolso de palavras. “Tempo de avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo”.
Na escuridão do medo, ao ler às escondidas seus versos que eram, para mim, um cântico em favor da Amazônia, entendi a importância desta celebração. Imagine agora diante do fogaréu que se alastra devorando a floresta, matando sua fauna, destruindo sua flora, empobrecendo ainda mais o Brasil.
Foi quando, numa madrugada qualquer, entre o raiar do sol e a conversa de pássaros e estrelas na madrugada, topei com os Estatutos do Homem. Garoto, ainda, quando descobri, no seu mais célebre poema, a verdade e a liberdade, palavras tão pouco ouvidas naqueles dias, e o poeta, incitando para que não fôssemos a solitária vanguarda de nós mesmos, no correr da pena: Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Manhã de domingo. Trago sua palavra, seu nome, sua voz. Eternizo tudo isso para que juntos entendamos de vez que “agora vale a verdade, agora vale a vida, e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira”.

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