“Toda semana estava no hospital tomando medicação por conta da endometriose”

Foto: Alessandro Maschio/JP

Além de infertilidade, doença traz cólicas menstruais e dores nas relações sexuais

A endometriose é uma doença inflamatória crônica que afeta mulheres em idade reprodutiva. Ela acontece quando o tecido da camada interna do útero – que sai na menstruação – começa a crescer fora dele. Segundo o Ministério da Saúde, acomete uma em cada 10 mulheres no Brasil, mas diagnóstico pode levar até 10 anos.

A doença é ganhou destaque nacional nos últimos dias quando a cantora Anitta veio a público contar que descobriu a doença e teve que fazer uma cirurgia. “Pode comprometer diversas localizações, entre elas os ovários, peritônio, ligamentos úteros-sacros, região retrocervical, septo retovaginal, além de bexiga e intestino. Ela é uma das afecções benignas mais comuns durante o período de vida reprodutiva da mulher, atingindo de 5% a 15% dessa população”, explica a ginecologista e obstetra da Santa Casa de Piracicaba, Sissi Zilli Bertolini.

Um dos fatores que mais pode pesar na vida da mulher com a doença é o diagnóstico tardio. Até lá, a paciente sofre com todo tipo de dor abdominal, cólicas menstruais severas, dores nas relações sexuais e com diversos problemas intestinais e urinários. E mais: dependendo do órgão que a endometriose acometer, causa infertilidade. E tem os casos assintomáticos, que dificulta ainda mais a descoberta da doença.

“O diagnóstico se baseia na história clínica do paciente, no exame físico, nos exames complementares como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética. No entanto, a confirmação do diagnóstico é feita por videolaparoscopia, que é considerada padrão ouro para o diagnóstico, possibilitando a inspeção direta de amplas áreas de superfície de órgãos intra-abdominais”, diz Sissi.

Como é uma doença que atinge diretamente a parte íntima da mulher, o psicológico também fica abalado. Principalmente se a busca é por engravidar.

TRATAMENTO
Médicos orientam sempre na realização de exames mais específicos a qualquer sinal de dor incomum no período menstrual. Cólicas esporádicas são normais, mas dores intensas, todos os meses, precisando muitas vezes recorrer a um hospital para tomar medicação, devem ser sinal de alerta. Além disso, outros sintomas não devem ser ignorados, como frequentes infecções urinárias junto ao período menstrual. Pode ser que a endometriose, neste caso, tenha atingido a bexiga da paciente. E dor no sexo também não é normal.

Quanto antes for descoberta, mais fácil ser tratada. Se estiver em estágio profundo, os casos geralmente são cirúrgicos. “O tratamento deve ser individualizado, podendo compreender uma abordagem farmacológica, cirúrgica ou ambas. O tratamento medicamentoso tem como finalidade bloquear a menstruação e aliviando os sintomas, com intuito de estabilizar ou até regredir as lesões. Já o tratamento cirúrgico é preconizado por alguns estudos científicos, apenas para pacientes que não respondam ao tratamento medicamentoso, bem como para aquelas que desejam engravidar espontaneamente, sendo a laparoscopia a via preferencial”, cita Sissi.

O relato da publicitária Lis Bertolini, de 30 anos, mostra o sofrimento que passou em decorrência da endometriose. E ainda não acabou. Pois após já ter sido operada, alguns problemas continuaram e ela vai ter que passar por nova cirurgia. Atualmente, Lis também é estudante e está no quinto ano de Medicina.

“Desde bem jovem passei a ter dores intensas no abdômen. Tomava todos os remédios possíveis e nada melhorava. Eu tinha dor até quando não estava menstruada. Um dia, a dor estava muito forte na região do apêndice e fui para o hospital com suspeita de abdômen agudo inflamatório (apendicite). Ao realizar exames, o médico viu que na verdade eram dois endometriomas, um em cada ovário. Endometrioma é um cisto no ovário com endométrio dentro, a famosa endometriose no ovário”, conta.

Até Lis chegar ao diagnóstico, viveu parte da vida com dores. “Minha menstruação tinha alto fluxo por 7 dias. Com 20 anos de idade, as dores abdominais e até mesmo na lombar passaram a ser mais intensas. Antes, eram pré e durante a menstruação; após alguns anos elas passaram a não ter hora para aparecer. O diagnóstico definitivo demorou. Eu já possuía os endometriomas há anos, mas todos os médicos que avaliavam diziam que eram apenas um cisto simples. Quando o quadro de dores foram se tornando insuportáveis e com suspeita clínica de endometriose, busquei clínica especializada, que confirmou o diagnóstico”.

Lis já fez cirurgia e vai ter que operar novamente devido à complicações nos dois ovários. “O crescimento dos endometriomas me trouxe um quadro infeccioso e tive que operar em caráter de urgência. Porém só operei os ovários, ainda preciso operar a endometriose que está espalhada em meu abdômen”. A endometriose de Lis está no apêndice, intestino grosso, vesícula, bexiga e trompas.

Como Lis passou a ter retenção urinária em virtude da doença – estava comprimindo seu ureter – ela teve que fazer uso de sondagem vesical para conseguir urinar. “Ambos endometriomas viraram abcessos, que repercutiram em meu corpo de forma sistêmica: crises de dores abdominais intensas, dor em todo corpo, anemia, extrema fraqueza, perda de apetite, calafrios. Usei um dreno em um dos meus ovários por semanas”, conta ela, que aguarda o fim do sofrimento quando fizer uma nova cirurgia.

Nani Camargo
Especial para o JP

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