‘Todo atleta quer olimpíada e medalha’

Guardem esse nome: Erik Cardoso. Talento da nova geração do atletismo brasileiro, esse piracicabano da Vila Sônia, região do Santa Teresinha, é o atual dono da melhor marca dos 100 metros rasos, 10s01, conquistados no final do ano passado no Campeonato Brasileiro, em Bragança Paulista, interior do Estado. O recorde sul-americano é também a segunda melhor marca da história do atletismo brasileiro – só perde para os 10s cravados feitos pelo ex-velocista Robson Caetano em 1988, um dos maiores nomes do esporte nacional. Após um ano de muitas vitórias, Erik voltou a Piracicaba para alguns dias de descanso, mas também de muito trabalho, pois seus técnicos, Darci Ferreira da Silva e Maria Rosana Soares, passaram uma programação de treinamento que ele realizou com sucesso no Sesi da Vila Industrial, até o dia 10 de janeiro, quando se reapresentou à sua equipe, o Sesi/SP, em Santo André, no ABC Paulista.

Nesta entrevista exclusiva ao Jornal de Piracicaba, ele conta sobre a trajetória no atletismo, desde o início, em Piracicaba, até sua chegada à Seleção Brasileira. Erik relembra também as grandes conquistas que teve na carreira, a partir das categorias até chegar às grandes competições nacionais e internacionais que têm em seu currículo. Seu principal projeto para o próximo ciclo, que se inicia neste ano, é a busca do índice para os Jogos Olímpicos de Paris, na França, em 2024. O velocista, que passou por outras modalidades do atletismo, como arremesso e peso e lançamento de disco, também lembrou das concessões que teve de fazer na vida para vencer no atletismo e deu um conselho aos mais jovens que estão começando no esporte: “Criançada, persistência sempre! Deem o melhor de vocês dia após dia.”

Como você descobriu esse talento para o atletismo? Como você começou a treinar aqui em Piracicaba?

Eu iniciei no atletismo em 2012, por volta de outubro de 2012. Foi uma professora de Educação Física, o nome dela é Rose, de Americana. Eu me lembro que comecei na quinta série, no Sesi 165, quando você começa a ter várias matérias. E ela me disse que eu era fortinho, que tinha um bom porte físico e falou para eu ir para o atletismo que eu poderia me dar bem. Me apoiou bastante. E foi assim que eu comecei. Foi aos 12 anos, com um incentivo muito grande de minha professora. Ela insistiu bastante pra eu começar e valeu a pena. Está valendo muito a pena.

Então você já começou no Sesi, onde, inclusive, é a sua atual equipe?

Sim, eu comecei no Sesi mesmo, onde eu já estudava. Diante disso, eu consegui entrar no PAF (Programa Atleta do Futuro) com a professora Rosana aqui em Piracicaba. Eu estudava no Sesi do Jardim Planalto e fazia o esporte no Sesi do Industrial, onde eu passei a estudar depois.

E como foi a oportunidade de ir para o Sesi São Paulo? Como foi essa mudança. Foi um convite, um teste…?

O Sesi é um só no estado inteiro. A gente treinava no Sesi aqui no Industrial. Tinha uma equipe de rendimento aqui e outra lá em Santo André (região do ABC paulista). Aí o Sesi organizou para nós que éramos aqui de Piracicaba, o Darci, a Rosana (técnicos) e todos os atletas fossem para o Sesi de Santo André. Dessa forma, eu fui transferido para o Sesi Santo André. Eu cheguei lá no final de janeiro de 2017. Já são por volta de cinco anos essa parceria de sucesso.

E nessa trajetória, quais são as principais conquistas que você poderia destacar para gente?

Eu tive a oportunidade de ser campeão do meu primeiro Campeonato Brasileiro, com 15 anos de idade, no qual eu ganhei a prova dos 75 m rasos; em 2017, fui campeão mundial escolar, representando a escola do Sesi SP nos 100 m; fui campeão sul-americano duas vezes nos 100 m. Uma na categoria sub-20 e outra neste ano (em 2021) na categoria sub-23; fui campeão sul-americano na prova 4×100 adulto, na seleção adulta; campeão dos jogos pan-americanos júnior, em dezembro de 2021, entre outros.

E na seleção? Como foi a experiência?

Essas competições, campeonatos sul-americanos, mundiais, jogos pan-americanos, citados acima, foram todas pela seleção brasileira de atletismo. Aí é muito boa a interação com todos os atletas e com a equipe técnica do Brasil, da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo). É uma honra representar o meu país.

Você optou deste sempre pela corrida de velocidade ou fez outras modalidades dentro do atletismo?

Quando eu comecei no atletismo, principalmente aqui no Sesi Industrial, o Darci e a Rosana queriam que a gente experimentasse a maioria das provas, para ver qual a gente iria se identificar melhor. No início, eu me identifiquei melhor com a corrida e com o arremesso de peso. Bem distintas assim. Graças a Deus, nós tivemos bom desempenho nessas duas provas. Até os 14, 15 anos fiquei nas duas provas. Também eu tive a oportunidade de fazer lançamento de disco, onde eu fui vice-campeão brasileiro em 2014, aos 14 anos. Foi quando eu quebrei o dedão do pé e fiquei sem correr. Eu já fazia o peso e tinha que fazer uma segunda prova e foi nessa época que me tornei vice-campeão brasileiro em São Paulo, lá no Centro Olímpico. Foi uma prova muito marcante para mim até hoje. E foi a partir de 2016 que especificou um pouco mais nos 100 m, na prova de velocidade.

Você faz 200 metros também?

Sim. Eu faço 100 e 200 metros. Minha marca nos 100 metros e mais expressiva que nos 200 metros. Mas sigo treinando para conquistar e melhor marca sempre, tanto nos 100 quanto nos 200 metros rasos.

Você fez 10,01 nos 100 metros, que é a sua melhor marca e é a melhor marca do Brasil na história. Mas em termos de mundo, você precisa baixar um pouco ainda…

Em termos de mundo, se a gente for ver como foram os últimos campeonatos mundiais, a gente vai ver os atletas correndo na casa dos 9,80 ou 9,70… Nos últimos anos, foram essas marcas. É coisa de 30 centésimos, mas tem uma diferença enorme. Mas pra Deus nada é impossível e eu sigo dando o meu melhor para chegar cada vez perto dessas marcas.

A sua marca de 10,01 foi conquistada no final ano passado aqui no Brasil mesmo, em Bragança Paulista. O que passou pela sua cabeça quando você vui que conseguiu o feito tão importante? Já esperava ou foi uma surpresa?

Eu já vinha treinando bem nas últimas semanas e esperava melhorar a minha marca. Na época, eu tinha 10,23, estava muito bem, mas não imaginava que ia cruzar a linha com 10,01. Os meus professores, o Darci e a Rosana, que estão comigo há anos, assistem sempre os meus treinos e me corrigem e esperavam que eu poderia correr uma marca boa. Quando eu cruzei a linha de chegada, eu coloquei a mão na cabeça e disse “ah, meu Deus é isso mesmo que está acontecendo?”. Durante a corrida não dá pra imaginar que será um bom tempo. Você só vê o tempo quando cruza a linha de chegada.

O novo desafio, agora, é você manter esse nível e até melhorar, não é mesmo? Pois, agora, o 10,01 é a marca a ser batida…

Eu e meus treinadores, Darci e Rosana, falamos que o objetivo é seguir treinando para sempre evoluir, juntamente com toda a equipe técnica, fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas… Eles estão sempre nos orientando para que eu sempre possa evoluir na carreira. Tem muito atleta bom no Brasil que está com esse mesmo objetivo, treinando para abaixar para vez mais também suas marcas.

É porque o Brasil tem muita tradição nos 100 e 200 metros, no revezamento também. É uma concorrência forte, não?

Essa nova geração vem forte realmente. Você vê que o 4×100 tem medalhas olímpicas; os meninos do 4×100 foram campeões mundiais em 2019 no Japão. Em 2021, chegaram em segundo no Mundial de Revezamento, mas infelizmente houve uma queima. O Brasil, com a graça de Deus, está vindo muito forte. E o objetivo é esse: treinar e brigar para estar sempre entre os melhores do mundo.

A olimpíada da França já é daqui a 2 anos e meio. Você acha que dá para sonhar em estar lá?

Se Deus quiser, eu pretendo estar nesses Jogos Olímpicos. Primeiramente, vamos tentar conseguir a classificação (a CBAt ainda não divulgou o índice necessário para ir a Paris). E estando lá sempre dar o melhor para conseguir uma medalha. Sem dúvida é um sonho para qualquer atleta estar em uma olimpíada e conquistar uma medalha.

Erik, nos diga. Para ser um atleta de ponta tem de renunciar várias coisas: família, amigos, etc… Foi uma escolha que te fez perder outras tantas. O que você poderia falar nesse sentido…

A nossa vida é feita de escolhas. Eu escolhi ser atleta e para isso eu tenho de dar o melhor dia após dia. E quando escolhe ser atleta, tem de viver de acordo com aquilo que você escolheu, porque você tem de ir atrás do que quer, muitas vezes abrindo mão da família, dos amigos… É por isso que temos de saber muito bem o que a gente quer, dos nossos objetivos e ir atrás com toda vontade.

E para terminar, Erik, já agradecendo muito sua entrevista ao JP, gostaríamos que você deixasse um recado para essa galerinha que está começando agora. Que conselho para essa geração que está iniciando no esporte, seja ele qual for?

Criançada, persistência sempre! Deem o melhor de vocês dia após dia. Entreguem na mãos de Deus os seus sonhos e confiem na fé que vocês têm. Tem aquele clichê, mas é verdade: “não desista de seus sonhos”. Vai ter hora que você vai ver que as coisas parecem que não estão dando certo e faz parte do caminho, do processo. O que não pode é desistir, deixar a peteca cair, como dizem… Momentos de vitória, com a graça de Deus, chegarão, momentos difíceis também. Mas são esses momentos difíceis que você constrói a base. É isso. Nunca desista!

Erivan Monteiro
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