Triste estar sem você

No domingo passado, entreguei à Luz de Deus, um dos meus sobrinhos. Pensavam que não os tinha? Deus me ofereceu alguns. Especiais. Muito especiais. Dentre eles, os gêmeos, Ricardo e Walter, prova inequívoca da grandeza do amor, filhos que são de Walterly Accorsi, exemplo de fecundidade alargada, como dita Francisco, o Papa, netos de Judith e Walter Accorsi, reveladores da verdade do amor, da alegria do amor, do amor na família.

No ato de aceitação estampado no coração de Walterly, ensinando a caridade em sua grandeza e plenitude, convidou-nos, a poucos é bem verdade, chamando-nos a que fôssemos férteis no amor. Agora, em meio a esta trajetória difícil por que passamos agora, nós que, ao longo de tantas décadas, vivemos momentos de intensa felicidade, seguindo o exemplo pródigo de amor e generosidade que jorrava do coração deles.

Isto nos permite, hoje a engolir o que Deus determina e sentir fundo o núcleo capaz de repetir Isaías quando afirma que nos amamos tanto e tão intensamente que jamais nos importamos com o sangue e a carne, inundados do amor que nos cobria.

Tenho feito brilhar alguns capítulos deste diário escrito com tintas de amizade única, onde pululam histórias as mais diversas, nas viagens que fizemos juntos por tantos lados, nas conversas, nas reuniões de família e – por que não? – nas horas de angústia e medo. Em todas elas este velho tio, sempre presente, ao lado da mãe extraordinária que tiveram, ajudando a entender ou minimizar crises que a infância e a maturidade impulsionam.

Que pena! Logo agora que esses gêmeos, tão amigos um do outro, fortaleceriam o vínculo que os unia tanto e, conosco, Ricardo, jovem ainda, foi arrancado sem dizer adeus nem saber de mãos acenando. A gripezinha matou meu sobrinho menos de quarenta e cinco dias depois de sua mãe ter, também, adormecido, não sem recomendar-me a mim e a seu irmão, em quem confiava tanto, para estarmos com ele. Neste curto espaço de tempo, não precisamos intervir uma só vez. Só não pudemos blindá-lo contra o vírus maldito e o inconsequente comportamento da grande maioria da população brasileira que se supõe em férias coletivas.

Agora, marcado pela saudade e pela dor imensa, tento ouvir sua voz, rir de suas muitas brincadeiras, agradecer as tantas alegrias com que ele, ao lado do irmão Walter, me presenteou desde o nascimento.

Só me resta dizer adeus e esperar que nos reencontremos na Luz e ter, ao chegarmos por lá, discernimento para reconhecer que todos os que se encostaram em tantas mentiras acobertadas pela hipocrisia, capa da sociedade em que vivemos, terão a resposta infalível da Justiça estampada na Palavra de Deus: “virei com Minha ira”.

Dos filhos de Ricardo, nesta tarde de solidão e saudade em que lhe escrevo, Cainã tem sido meu leal amigo. Ele, Neto e Laura ajudam-me com seu carinho, com sua natural alegria, a sentir mais belos os fins de tarde de inverno que brotam pelos lados das serras e montes para entender o quanto esta meia claridade, este céu pintado a meia-tinta se parece comigo.

Naquele instante, houve um grande cansaço na alma do meu coração, que lhes conto agora. Entristeceu-me sentir quem eu nunca fui ao ver não sei que espécie de saudade cutucar-me, sussurrando ser a lembrança que tenho dele, dos seus primeiros meses de vida no Recife, conhecida de tão poucos, dos sete dias de agora em que se despede de nós, dos amigos, da cidade, como se fora assim, o pôr do sol deste dia, lindo, mas misterioso, escondendo segredos tantos que só Deus conhece profundamente.

Caio junto, porque no instante mesmo, “caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos.”