Tristeza

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Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”. (Tom Jobim – Vinicius de Moraes)

Sem dúvida a vida é um dom maravilhoso. Há quem, apenas por desfrutá-la sinta uma alegria indisfarçável.

Os estudiosos do comportamento, cada um analisando-o ao seu modo, portanto contradizendo-se, costumam em sua maioria afirmar que os ignorantes e os desprovidos de bom senso não possuem condições para uma avaliação segura daquilo que é bom ou ruim. São, portanto, mais fáceis de serem agradados e de sentirem-se felizes, alegres, mesmo engolfados pela pobreza e sofrimentos.

O ser humano, melhor, a mente humana é misteriosa e insondável. Até hoje, suas atitudes, seus comportamentos, suas exteriorizações de alegria são alvos de estudos por parte de psicólogos, psiquiatras, neurologistas, filósofos e palpiteiros. As análises que eles nos oferecem, muitas vezes, contradizem-se e não nos apresentam fundamentações seguras, confiáveis.
A pesquisa moderna, com o sequenciamento do genoma (ordenação de todos os fatores hereditários), para muitos acena com a esperança de desvendar o mistério de como a vida funciona e a esperança de alterá-la para mais e melhor.

Enquanto estes estudos não se completam e as expectativas não se concretizam, resta-nos apenas filosofar sobre o tema tristeza ou qualquer outro sentimento que costuma nos assaltar. Como o ser humano parece deliciar-se em provocar nos outros sofrimento e mágoa, e com facilidade passa da euforia para a consternação, não faltaram “filósofos” para criarem provérbios, citações sobre nossos sentimentos. Entre os ditos populares brasileiros há vários encorajadores e de estímulo à ação e à reconstrução como: “tristeza não pagam dívidas”; “as dificuldades são do tamanho que as imaginamos”; “não pense naquilo que perdeste, mas, somente no que ainda poderás ganhar”; “que seria das estrelas, se não fosse a noite escura?”

Pode-se, ainda, pinçar, aqui e ali, de autores vários, frases que procuram fazer crer como a tristeza ou qualquer sentimento negativo não deve imperar em nosso coração: “O mais infeliz de todos os homens é aquele que assim se julga, porque a desgraça depende menos das coisas que sofremos, do que da imaginação com que aumentamos a própria infelicidade” ( Fenelon); “tua irritação não solucionará problema algum” (André Luis); “não vos desesperei na desgraça; ela é freqüente vezes, uma transição à boa fortuna” (Marquês de Maricá); “perdeste o império do mundo? Ora! Não te aflijas, não é nada. Dores e alegrias, tudo passa. Tudo passa neste mundo, onde tudo é nada ( Answari Schell).

Mesmo sabendo de tudo isso, fui tomado por uma avassaladora tristeza, uma melancolia incontida, uma aflição que me impediu de qualquer comemoração. Tristeza maior senti dois dias depois ao constatar que meus colegas tinham razão, quando afirmaram sentirem-se como a velhinha de Siracusa. Ela implorava, aos deuses, vida longa ao tirano, de medo do filho que era ainda pior. Senti tristeza pelos colegas porque estão condenados, desde já, a uma situação cada vez mais opressora.

A mim restou, repetir, ao longo da semana, inúmeras vezes como uma prece, os versos de Haroldo Barbosa: “Tristeza, por favor, vá embora/ minha alma que chora, / está vendo o meu fim/ Fez do meu coração a sua moradia/ Já é demais o meu penar/ Quero voltar àquela vida de alegria/ Quero de novo cantar”.
Comecei meu artigo com a palavra tristeza que nas nevoas do inverno ela nos invade e a pandemia a nós aterrarizar.
Cervantes nos deixou que “as tristezas não se fizeram para os animais, mas sim para os homens; mas se os homens as sentem demais tornam-se ]animais..

Espero que com toda essa tristeza não nos transformemos em animais e retornemos no Neolítico Moderno.

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