Emfermeira Jacqueline Defavari Bonilha é responsável pelo CIHDOTT | Foto: Divulgação

No último dia 9 de outubro, a pequena Alice, de 9 anos, recebeu um presente envolto de amor ao próximo e solidariedade: um novo rim. A batalha da menina começou ainda na barriga da mãe, Valquíria Giatti, que descobriu a deficiência renal da filha no último ultrassom antes do parto, quando foi notado que os rins estavam de tamanho maior.


Até julho deste ano, de acordo com relatório da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), 40.740 pessoas estavam na fila de espera por um transplante. Só no Estado de São Paulo eram 17.127 pacientes.


Após infecções inexplicável e dores por todo o corpo, que começaram no último bimestre de 2018, a família de Alice descobriu que as atividades dos rins da menina tinham diminuído muito e, então, foi preciso começar a fazer hemodiálise. A doação que a criança recebeu a entregou de volta mais vida.

“É inexplicável mensurar toda gratidão que estou sentindo neste momento, por isso reforço a importância de ser um doador de órgãos. Eu e minha família, que tivemos a felicidade de receber o amor de outra família que, em um momento de dor, de perda, teve a compaixão de dar à nossa filha uma nova esperança de vida, com liberdade e com muita alegria. Somos eternamente gratos a eles e a todas as famílias doadoras de órgãos”, comenta Valquíria.

Alice e seus pais | Foto: Divulgação


Assim como em outros setores, a pandemia também impactou os transplantes e a busca ativa de doadores de órgãos e tecidos. O exame RT-PCR (para diagnóstico da covid-19) foi implantado procedimento para os doares de órgãos. E as entrevistas com as famílias para doação de córneas foram suspensas por alguns meses.

“A condição de morte encefálica essa não foi suspensa. Até porque um doador de morte encefálica pode ajudar até 10 pessoas que está aguardando na fila para um transplante de órgão sólido. No entanto, aumentaram-se os critérios para que fosse possível a doação”, explica a enfermeira responsável pelo CIHDOTT (Comissão Intra Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes) da Santa Casa de Piracicaba, Jacqueline Defavari Bonilha. O hospital retomou a busca ativa por doadores de córneas em 1º de outubro.


Mesmo com os requisitos mais restritos, os profissionais não deixaram de trabalhar com dedicação para oferecer segundas chances a centenas de pessoas. O coordenador da OPO (Organização de Procura de Órgãos) do Hospital de Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Luiz Antonio da Costa Sardinha, conta que a organização não parou e, apesar da pandemia, a região atendida não teve perda de doadores. Até setembro deste ano, foram 92 doadores efetivos, enquanto que no mesmo período de 2019 eram 86. Aumento de 7%.

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PENSAR NO OUTRO
A doação de órgãos sólidos é feita quando há comprovação de morte encefálica por dois médicos, de acordo com o CFM (Conselho Federal de Medicina). Já a de córnea é possível quando o coração para de bater. Para que a doação seja realizada, porém, a família precisa autorizar. Aí entra em cena o trabalho dedicado do CIHDOTT, com profissionais capacitados para abordar os familiares.

“Naquele momento de dor, pensar no outro, que está necessitando e você poder compartilhar daquele bem mais precioso que é um filho, pai, irmão”, lembra Jacqueline.


O presidente da ABTX (Associação Brasileira de Transplantados), Edson Arakaki, lembra que “o transplante é muitas vezes a única alternativa restante, para alguém com uma doença crônica agravada”, afirma.
No caso de Joyce Scarpari Gomes Berno, 31, ela precisou esperou na fila durante dois anos para conseguir o primeiro transplante de rim há 18 anos, ainda adolescente.

Quando esse órgão entrou em falência, passou pelo procedimento novamente em setembro deste ano. “Por dois meses e meio vivi tudo de novo: diálise peritoneal, exames, testes de compatibilidade até, novamente, receber a boa notícia: meu novo rim havia chegado”, conta.

MAIS TRANSPLANTES
O Hospital Unimed Piracicaba tem credenciamento para realizar transplantes renais entre vivos. Durante a pandemia, por recomendação do MS (Ministério da Saúde), foram suspensas para evitar. Porém o hospital não parou a busca ativa diária por doadores de órgãos e tem a intenção de aumentar a oferta de transplantes entre vivos e de doador com morte encefálica. De acordo com o hospital, já existe estrutura física compatível.


“O objetivo é intensificar a busca ativa nos setores, pois o número de receptores na fila de espera por um transplante teve aumento significativo devido à pandemia”, informa em nota. Também estão previstos novos treinamentos com a equipe médica e de enfermagem para identificar “para identificação de pacientes com sinais clínicos de morte encefálica”.

Andressa Mota

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