Um filme clássico que vale a pena reassistir

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Armando Alexandre dos Santos
*Doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Círculo Monárquico de Piracicaba e do IHGP.

Agonia e Êxtase (1965) é um filme clássico, extremamente bem-feito, no qual figuram dois grandes e premiados atores, Charlton Heston (que também figurou em Ben-Hur e El-Cid) e Rex Harrison (professor Higgins, em My Fair Lady). Em Agonia e Êxtase, Heston fez o papel de Michelangelo, e Harrison, o do Papa Júlio II. O choque das fortes mentalidades dos dois é magnificamente bem interpretado no filme, com um cenário e um figurino de primeiríssimo nível.

Quanto à ambientação temporal (Júlio II foi papa de 1503 a 1513), é sem dúvida um filme grandioso, se bem que alguns pequenos anacronismos nele aparecem. Um exemplo: pareceu-me um tanto deslocado o escândalo provocado por figuras nuas ou seminuas na pintura da Capela Sistina, realçado no filme. Pelos costumes da época, a utilização de nus artísticos era generalizada e não provocaria o escândalo da forma apontada no filme.

Agonia e Êxtase retrata bem aquela fase de inegável decadência religiosa, na qual o elemento humano e pecador da Igreja Católica adquiriu um realce desmedido, fazendo sombra a seu elemento divino, espiritual e santo. Como diria séculos depois o historiador Ludwig von Pastor, autor de uma monumental História dos Papas da Renascença, a Igreja Católica provou ser realmente de instituição divina, pois nem os Papas conseguiram destruí-la, por mais que tentassem… Quem não toma em consideração esse duplo aspecto da Igreja Católica – de um lado sua natureza espiritual e divina, pura e santa, de outro seu elemento humano, cheio de misérias, defeitos e até crimes – muito facilmente perde a perspectiva adequada para julgá-la na História.

O medieval entendia-se a arte como a expressão da beleza, e o belo se definia como o esplendor do bem, ou da bondade (splendor bonitatis). Tudo isso, numa ótica teocêntrica, em que o homem se postava numa posição secundária. Deus era o sumo Bem e a suma Beleza. Todas as formas de representação de belezas artísticas se ordenavam a Deus. Nesse contexto, o belo era um fim em si, pois remetia diretamente a Deus, que era a suma Beleza.

Como o elemento humano era deixado em segundo plano na Idade Média, muitas obras-primas eram anônimas. Das catedrais, por exemplo, quase nunca se sabe o nome dos projetistas e construtores. Tudo era feito dentro de um espírito religioso, muitas vezes até mesmo como penitência por crimes e pecados, tudo se fazia de modo a centrar o foco das atenções em Deus.

Já com a Renascença, deu-se uma verdadeira reviravolta nessa ordenação medieval. Entrou em cena o antropocentrismo. O Homem, e não mais Deus, passou a ser o centro das atenções. Do ponto de vista formal, não se chegou imediatamente ao ateísmo; mas, na ordem concreta dos fatos, Deus foi cada vez mais se tornando elemento secundário. O Homem era o centro de tudo.

A gigantesca reviravolta assim constituída na passagem da Idade Média para a Renascença foi muito bem expressa pelo filósofo francês Etienne Gilson: “A diferença entre o Renascimento e a Idade Média não foi uma diferença produzida por adição, mas por subtração. O Renascimento, tal qual nos foi descrito, não foi a Idade Média mais o homem, mas a Idade Média menos Deus, e o que houve aí de trágico, foi que, ao perder Deus, o Renascimento perdeu o próprio homem.” Essa observação lapidar de Gilson foi transcrita numa das questões do exame do ENAD, de História, em 2005.

Dentro do contexto dos novos tempos, os critérios estéticos tiveram importância fundamental. Houve todo um retorno a padrões estéticos da Antiguidade. E sempre com o Homem no centro das coisas. E aí duas figuras tomaram uma importância também nova: em primeiro lugar, o artista, que passava a ser o autor reconhecido da sua obra, que não mais se contentava com o anonimato humilde dos artistas medievais; e em segundo lugar, o mecenas, que financiava o artista e em homenagem ao qual, pelo menos em princípio, era feita a obra. Era sempre o homem que estava em foco, seja como autor, seja como finalidade.

O filme mostra muito bem essa dicotomia, entre o artista Michelângelo e o mecenas Júlio II, que queria decorar a capela Sistina para, assim, perpetuar seu nome e o de um papa anterior, seu parente. Um precisava do outro, um não podia viver sem o outro. Mas ambos em perpétuo conflito, com seus egos poderosos sempre se chocando.

No contexto da época, o mecenato era uma instituição inevitável. O mecenato também teve, por parte da Igreja, certo caráter pastoral e apostólico. Entendia-se que, por meio da beleza e da arte, era possível tocar os corações e, assim, aproximá-los de Deus. O empenho de colocar a estética a serviço da fé seria, pouco mais tarde, uma das características do estilo barroco, gerado pela Contrarreforma.

No filme, porém, essa ideia apostólica está quase inteiramente ausente, ficando mais focado o lado antropocêntrico do problema: o conflito dos dois egos, o de Michelângelo – desejoso de realizar plenamente sua concepção estética e, assim, imortalizar-se como artista – e o de Júlio II, desejoso de engrandecer sua família e, assim, a si mesmo.

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