Um pãozinho, apenas um

Foto: Pexels

Lembro-me ainda – com ternura e enlevo– de minha mãe, ajoelhada junto à cama, ensinando-me a recitar, com ela, a Ave Maria. O aroma dos lençóis sabia a lavanda. Ela, então, cobria-me com carinho e, beijando-me o rosto, augurava: “Que o Anjo da Guarda proteja o seu sono.” A paz, o conforto, a segurança – que, naquelas noites, me abençoavam – acompanharam-me pelo resto da vida. Parecem-me impregnados na pele. Ou na alma?

O que ainda me encanta é recordar do aparente paradoxo: uma casa com gritos, alegrias, molecagens da criançada e oração, muita oração. E a impressão, que me fica, é a de a devoção ser mais voltada a Nossa Senhora do que a Jesus. De Jesus, aliás, meu pai, orgulhosamente, dizia ser primo, um parentesco garantido pelo sobrenome Elias. E, por parte de mãe, lá estava ninguém menos do que Abrahão! Como escapar a isso?

O fato é que crescemos sob o signo do agradecimento. Agradecer pelo dia, pelo descanso, pela saúde, pelo alimento a cada refeição. Acho que, já na minha mocidade, meu pai, ao almoço e ao jantar, passou a recitar: “Senhor. Dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão.” Gostei. E consegui transmiti-lo a meus filhos. Sinto haver completude naquela prece.

Então, há alguns meses, aconteceu. Foi quando – almoçando sozinho, quietude que me agrada – peguei um pãozinho, cortando-o com as mãos. O pão, o trigo, o panificador… Aos lábios, veio-me a prece dos judeus, assumida também pelos cristãos: “Bendito sejais, Senhor Deus do Universo, pelos frutos da terra e pelo trabalho dos homens.” A terra, a semente… Para eu ter aquele pãozinho, quantos tiveram que preparar a terra, plantar a semente, aguardar o fruto germinar, colher, debulhar, ensacar, carregar o peso nas costas, transportar, levar ao distribuidor e, deste, à padaria? E padeiros e ajudantes, vendedores, balconistas, entregadores? Quantas centenas, talvez milhares de pessoas participaram de todo o processo para o pãozinho estar em minhas mãos? E se semeadores do trigo tivessem sido pássaros, morcegos, o vento?

Senti-me menor. E, ao mesmo tempo, privilegiado. Na mesa, o arroz, o feijão, a carne, as verduras, a mandioca, a farofa… Quantas outras milhares de pessoas para aquela comida estar a meu dispor? E a mulher que cuida de tudo isso, que lava, que passa, que limpa, que cozinha, que cuida de minha saúde? E o jardineiro? E os pratos e talheres, quem os inventou, quantos trabalharam neles, há quantos séculos? E as frutas, tão generosas e cativantes diante de meus olhos? E a água, jorrando das torneiras? E o gás, o entregador do bujão? E os garis levando os sacos do lixo? E meus medicamentos, os cientistas, os médicos, os farmacêuticos? Senti-me ainda menor. Mas, no coração, a quentura aconchegante de saber-me, por fim, parte do todo, compartilhando tudo isso.

“Bendito sejais, Senhor, pelos frutos da terra e pelo trabalho do homem.” Que eu possa ser digno dessa epopeia com os meus simples estudar, ler, pensar, refletir, escrever e semear ideias.

Admito não ter-me dado conta até algumas décadas passadas. Tantas eram as novidades, as conquistas, inovações, revolucionárias técnicas – tantas eram que, realmente, nos acenavam com novas esperanças. E era impossível não se espantar – com entusiasmo – quem, na infância, aprendera que São Jorge estava na Lua lutando contra o dragão. Ver o homem descendo naquele lugar misterioso – ouvindo-o avisar que “a Terra é azul” – boquiabriu o mundo de entusiasmo mas, acho também, de medos não revelados. Mas pressentidos.

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