Um senhor digital e artístico

Reconhecido por sua grande capacidade de conciliação, gentileza no trato com as pessoas, sensibilidade para os problemas da comunidade e arrojada visão empresarial, Euclides Baraldi Libardi tem sido uma liderança marcante no desenvolvimento socioeconômico de Piracicaba. Nasceu em Tietê (SP), em 30 de dezembro de 1945, sendo o quarto de sete filhos do casal Silvio Libardi e Adelaide Baraldi Libardi. Iniciou seus estudos primários, em Piracicaba, na escola Sud Mennucci, e o secundário na antiga Escola Técnica Cristóvão Colombo e na escola estadual Jorge Coury. É formado em Administração de Empresas pela Unimep. A vida profissional aconteceu aos 12 anos como ajudante de fundição. Em 1981, assumiu a sociedade na Fundiart (Fundição Artística), onde atua até hoje e é sócio-diretor. É casado com Jacyra Maria Libardi há 48 anos, tem três filhas, uma neta e um neto. Atualmente, ele se divide na presidência do Simespi (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas, de Material Elétrico, Eletrônico, Siderúrgicas e Fundições de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras). Acompanhe Libardi nesta entrevista do JP.

Em julho deste ano, o Simespi comemorou 30 anos. O que mudou de lá para cá no cerne da instituição?
Nesses 30 anos, o mundo passou por uma transformação profunda, especialmente com o advento da Era Digital, e o Simespi precisou acompanhar toda essa evolução. A entidade foi criada em 1991, num momento em que a economia da cidade estava fortemente vinculada ao setor sucroalcooleiro. Depois do 2000, Piracicaba passou a atrair empresas dos mais diversos setores e o perfil industrial da cidade ganhou pluralidade. Hoje, temos indústrias praticamente de todos os setores. Isso obrigou o Simespi a ter fôlego para acompanhar toda essa evolução, especialmente para proporcionar cursos e capacitação para empresários e colaboradores. Outra mudança observada ao longo dessas três décadas foi no processo de negociação do acordo coletivo que, no passado, eram mais litigiosos. Hoje, conseguimos avançar de forma harmoniosa nas negociações, de modo que todos saiam ganhando: empresas e funcionários.

Quais são os desafios atuais para os empresários e como a entidade presidida pelo sr. vem trabalhando para apoiá-los?
Acho que um dos grandes desafios para os empresários, especialmente do nosso setor, é a insegurança jurídica que paira sobre o país. Há uma falta de confiança dos empresários que também é bastante complicada porque restringe investimentos e crescimento. O mundo político vê os empresários como financiadores, em quem busca recursos por meio de impostos, taxas que se avolumam cada vez mais. Percebo uma falta de sintonia entre governos e empresários e isso atrapalha muito o desenvolvimento e a economia. Os governos não ‘conversam’ com o setor industrial, que só recebe o ‘peso’ do setor público. Enquanto isso, vemos que os privilégios continuam intocáveis para os poderes da República. Isso precisaria ser mudado pelo Legislativo, mas o que vemos é uma complacência sem fim em relação a esses privilégios.

Agora como empresário de um setor bem específico, o de fundição especializada em obras de artes, objetos de decoração e utilitários, como tem se desenvolvido os negócios, qual suporte faltou e como enxerga o mercado para os próximos anos?
O mercado no qual atuamos está em expansão e operamos com uso de 100% da nossa capacidade instalada. Está difícil, inclusive, aceitar novos serviços. Tenho sido muito procurado para trabalhos na área da decoração. A concorrência é pequena porque há poucas empresas que se arriscam a investir nessa área por absoluta falta de mão de obra especializada, sem contar que não há escolas que ensinem esse ofício. Nosso grande desafio é manter a empresa funcionando com mão de obra qualificada e, por isso, ensinamos e treinamos nossos colaboradores dentro da Fundiart. Nossa empresa tem atualmente 40 funcionários e não demitimos durante a pandemia.

Na condição de maior responsável por um conjunto de empresas, o que tem ouvido como os principais debates e demandas para a indústria se fortalecer na região?
Este ano, especialmente, um dos assuntos que mais dominou a nossa pauta foi a alta de preços e a falta de matéria-prima para vários setores, que tiveram, inclusive, suas atividades paralisadas temporariamente em virtude desse problema. O setor automotivo é um exemplo, assim como as empresas que trabalham com chaparia e caldeiraria, que também pararam a produção por falta de matéria-prima ou precisaram importar. Passada essa fase, hoje observamos um certo otimismo com o aumento dos pedidos de orçamento. Antes da pandemia, falava-se do ‘estrago’ que a Operação Lava-Jato teria feito ao atingir grandes corporações como a Petrobras. Na ocasião, houve um recuo nos investimentos. Agora, para que a economia volte a crescer, é preciso que os governos realizem obras de infraestrutura. Isso ajudaria a impulsionar a economia novamente. Do ponto de vista local, sentimos a necessidade de criação de mais um ou dois distritos industriais. Há demanda para isso, mas não há áreas disponíveis para empresas que desejam se instalar na cidade ou expandir suas operações.

Em 2022 teremos eleições majoritárias, para Estado e país. Quais foram os erros cometidos até agora em sua análise dentro dessas esferas de poder? O que o Simespi avaliaria como positivo acerca das propostas dos candidatos estaduais e para presidência?
Faltou ao governo federal abrir um canal de comunicação com as indústrias de menor porte. Penso que teria sido importante a criação de uma agência que cuidasse disso, que fosse os ‘ouvidos’ do governo junto aos pequenos e médios industriais. Precisamos de maior facilidade na obtenção de licenças, mais acesso ao crédito e da desburocratização das relações entre empresas e governo. Quando o ministro da Economia, Paulo Guedes, diz que “a indústria precisa parar de assistir Netflix e ir para a esteira”, numa alusão equivocada de que a indústria não se esforça e não se “mexe” para movimentar a economia, percebemos essa total falta de interlocução. Outro grande erro percebido foi a falta de sintonia entre os governos federal, estaduais e municipais no combate à pandemia, sob o ponto de vista da abertura e fechamento das empresas. Cada um pensou de uma forma diferente e todos sofremos as consequências dessa falta de coordenação. No caso do governo estadual, esperávamos esforço maior em relação às políticas para o setor industrial, tão importante para São Paulo. Houve aumento nos impostos como o ICMS, elevação nas taxas pela Cetesb, entre outros problemas. Acreditamos que ainda seja cedo para avaliar porque os candidatos ainda serão definidos e precisamos conhecer melhor as propostas que eles apresentarão formalmente para a indústria.

Piracicaba se tornou o centro de um conjunto urbano neste ano. O que essa nova organização contribui para as indústrias e como espera que a administração municipal e o Legislativo se articulem em prol da economia – o que seria relevante em ações para a indústria?
Acreditamos que a criação da Região Metropolitana de Piracicaba é bastante positiva para o setor produtivo de uma forma geral. O município ganha status de “capitão do time” e espera-se que atraia investimentos e tenha o processo de desenvolvimento incrementado. É papel das forças políticas que nos representam trabalhar pelo fortalecimento permanente da cidade e, consequentemente, da região.

A história do sindicalismo no Brasil sofreu com a Reforma Trabalhista, em 2018. O fim da obrigatoriedade da contribuição sindical e o descrédito dessas instituições representativas por parte da opinião pública impactaram muitos sindicatos. Qual é a sua análise sobre a força e a necessidade do sindicato para as categorias de atividades econômicas? E por que e como os sindicatos, seja patronal ou do trabalhador, resistiram a 2018?
Antes da reforma, os sindicatos tinham como fontes de arrecadação o imposto sindical, as mensalidades e a taxa negocial. Com a fim do imposto sindical (que para o Simespi representava 40% da arrecadação), o impacto foi grande. Os sindicatos tiveram que criar fontes de receita e ir além da função de negociar acordos coletivos. Nós, por exemplo, começamos a investir mais na realização de cursos para empresários e colaboradores, e passamos a oferecer mais assistência profissional às nossas associadas (em áreas como jurídica e ambiental). Vejo que o Simespi tem hoje uma atuação mais parecida com a de uma associação do que propriamente de um sindicato, o que tem nos ajudado a ampliar nosso quadro associativo. Temos campanhas filantrópicas permanentemente, incrementamos parcerias que favorecem nossas associadas e, em virtude da pandemia, proporcionamos um desconto de 25% na mensalidade que entrou em vigor em maio e segue até dezembro próximo.

Dentre as crises instaladas ou na iminência de acontecer no Brasil, como recessão econômica, hídrica e energética, o que é mais preocupante e por quê? Quais as soluções ideais para essas três frentes: economia, água e energia?
É uma pergunta difícil de responder porque qualquer um desses quadros é assustador. Entretanto, a crise hídrica seria a mais grave na minha opinião porque teríamos pouco poder de intervenção, a não ser adotar ações de redução drástica do consumo. O jeito seria aguardar as chuvas.

Sobre as relações internacionais, incluindo acordos de cooperação e balança comercial, o que mais tem chamado sua atenção ultimamente? Como fazer e quais condições necessárias para a região exportar mais e importar menos? Há um temor de recessão global, como aconteceu, em 2007, com os créditos imobiliários e a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers?
Hoje, a atuação internacional depende mais da ação individual das empresas. O mercado de commodities, por exemplo, independe da imagem do governo no exterior porque temos os produtos e o mercado precisa deles. Quanto à importação, a compra de máquinas e equipamentos estrangeiro é positiva de certa forma. O que não pode é o descontrole na importação de outros manufaturados. Para exportar mais, é necessário um trabalho mais forte de divulgação e de aproximação para mostrar o que fazemos. O Simespi foi um dos realizadores do Simtec (Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia da Agroindústria) por uma década. Temos planos de nos reinventar com iniciativas que seja produtiva neste aspecto.

Agora sobre a política de combustíveis – um componente que afeta qualquer cadeia de produção. Como os altos preços vêm pressionando a indústria, quais saídas encontradas e o que seria um contexto ideal?
Os sucessivos reajustes nos preços dos combustíveis, que somam 35% desde janeiro passado, afetaram muito as empresas de um modo geral. No início do ano, conseguimos acertar o novo patamar dos preços na indústria, após a elevação nos preços da matéria-prima. Agora, essa alta impacta muito o valor do frete e isso prejudica a indústria novamente. Ou absorvemos esse custo com redução da margem de lucro, ou repassamos ao cliente, o que não dá pra fazer com os pedidos em carteira. Essa alta no preço dos combustíveis é injustificável e é bom lembrar que os governos estaduais têm sua responsabilidade porque cobram ICMS pesado na venda dos combustíveis.

Para finalizar: a pandemia de covid-19. Quais foram os desafios e como a indústria os superou? E como e quando enxerga um cenário para o fim da doença?
Mesmo que não tenha paralisado suas atividades como aconteceu com o comércio e serviços, a indústria sofreu os impactos da pandemia. Aqui em Piracicaba, agimos rapidamente na elaboração de um acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos, cujo objetivo principal era garantir a manutenção dos empregos. O acordo, que foi feito antes mesmo do governo dar as diretrizes, previa férias coletivas, banco de horas, atividades em home office etc, tudo em caráter excepcional. E deu certo, já que os empregos se mantiveram estáveis em nosso setor. O fim da doença está condicionado à efetividade das vacinas e, quem sabe, à descoberta de medicamentos que possam combater de verdade a infecção. Vamos continuar confiando na ciência!

Cristiane Bonin
[email protected]

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