Um texto simples

Um texto simples requer paciência. Reflexão. Exige discernimento para começar mal e acabar bem. Sim, no começo as palavras tropeçam e provocam colisões, mas depois se encaixam umas na outras, regidas por anacolutos e vírgulas. Pelos fonemas da amável poesia.

Um texto simples pede clareza e limpidez. Sem rococós desnecessários ou redondilhas fabulosas. Nada. Vai direto ao assunto e na desembalada louca breca de chofre. Mas com cuidado, até o ponto final.

Um texto simples é o gozo da vida. É o molho de tomate com manjericão. É o carro na garagem, a maçã, a banana e o mamão.

Um texto simples prepara a comida e mastiga o silêncio.

Uma refeição dos céus, para se comer em paz.

Um texto simples é uma pipa que o menino empina num descampado onde o pai senta ao lado para olhar. “Mais linha, filho”. Para a pipa subir mais alto no céu azul do sonho. O texto simples é o amor entre pai e filho.

Um texto simples é a calçada varrida, o chinelinho de tira do meio do dedo, aquele, sem o qual não sobrevivemos.

A vida transcorre melhor com ele. Até onde nos levarão nossos sapatos cotidianos, estes que temos de deixar do lado de fora de nossa casa, quando voltamos de algum lugar?

Ah, eles entravam conosco no nosso lar amado, trazendo lá da rua os humores do tempo.

Um texto simples vê anjos em toda parte e ouve sinos ao longe. Eu ouço. Não sei que sons são estes, de sinos badalando na tristeza da vida. Algo vai acontecer.

Ou já aconteceu. Houve um pedido de perdão. Alguém morreu. Alguém partiu de uma forma que ainda não acreditamos. Foi embora, na fila implacável. O adeus sem adeus gerou a dor de um texto simples.

Um texto simples tece a vida com leveza, inspiração e arte. Eleva o pensamento, que se supõe desprevenido de teses e questionamentos mais elaborados.

Por fim, quase não argumenta. Apenas se apoia sobre frases que nada propõem. Talvez aquele “deixa a vida me levar”, que cantamos sem acreditar muito nisso.

Um texto simples sempre será bem-vindo. Ele rompe com os paradigmas. Será lido pelo doutor e pelo moço que faz entregas e ambos terão compreendido sua essência, a mensagem que nele brilha de alguma forma. Um texto simples terá cumprido sua missão de juntar palavras. Exercício que requer alguma sintaxe.

Um texto simples cai bem a qualquer hora. Não me diga o contrário. Café e pão com manteiga. Sei do que estou falando. Quando há confinamento, perda do direito de ir e vir, e quando há um vírus mortal lá fora, não há nada mais calmante do que um texto simples.

Um texto simples é este que vos entrego hoje, neste despojamento deliberado, no total abandono de mim mesma ao cosmo, ao universo, à Criação inacabada que segue seu rumo à espera de melhores dias.

Pode ser que surja uma aurora feita de pura luz. De puro sonho. O leão comerá palha com o boi e a Terra estará cheia da ciência de Deus.

O que é esta, senão uma profecia simples?

Como se termina um texto simples? Com a mesma simplicidade com que se começou. Também para terminar é preciso paciência, sentir o momento certo de encerrar e procurar o ponto final. Ah, como é bom ter escrito um texto simples. E que Deus nos proteja.