“Vacinar-se é um ato de cuidado coletivo”, diz infectologista

Foto do infectologista Tufi Chalita
Infectologista Tufi Chalita fala sobre vacinação e pandemia | Foto: Claudinho Coradini/JP

O agravamento da pandemia da covid-19 é uma realidade em Piracicaba, afirma o médico infectologista Tufi Chalita. AS UTIs dos hospitais estão lotadas e, ao menos há três semanas consecutivas, os números de positivados ultrapassam os 100 por dia. O princípio da salvação reside na vacinação, mas enquanto questões burocráticas e políticas travam seu início no Brasil, cuidar-se e se informar são remédios valiosos.

Quem fala sobre vacina e sua importância e segurança é Tufi Chalita, médico formado pela Unicamp, com residência médica em clínica médica e infectologia pela mesma instituição onde se formou.

Em primeiro lugar, por que a vacinação em massa é importante?

Precisamos entender que vacinação não é um ato solitário, algo que faço apenas para me proteger. Vacinação é entendida como um ato coletivo. Quando se faz campanhas de vacinação, o entendimento é esse: se eu conseguir vacinar uma grande parte da minha população, eu vou diminuir a pressão que o vírus de uma determinada doença, e neste contexto atual é o da covid-19, exerce sobre uma determinada população. Se eu diminuir o número de pessoas que estão contaminadas, porque receberam vacina, as outras pessoas que não receberam a vacina ou que tomaram e ela foi ineficaz (não existe vacina com 100% de eficácia para bloquear o vírus), consegue assim diminuir o número de contaminados. Haverá um número de protegidas. Essa história da Coronavac que se discute, que teve eficácia acima dos 50%, diz bem isso. Ou seja, metade das pessoas que receberem a vacina, estarão bloqueadas e não vão disseminar o vírus, só que outros 50% estarão desprotegidas. Existem cálculos em estatísticas sobre isso que diz assim: uma vacina que tem eficácia de 95% de bloquear o vírus, como, por exemplo, a vacina do sarampo, 50% da população recebendo já é suficiente, o oposto da Coronavac, que tem uma eficácia de 50%, então é preciso vacinar 95% da população para que consiga fazer aquilo que, grosseiramente, chama-se de imunidade de rebanho. Veja, vou impedir a circulação do vírus de uma forma importante, então vou conseguir bloquear aquela doença e fazer com que os casos diminuam drasticamente.

Qual a dinâmica do sistema imunológico a partir que de a pessoa recebe uma vacina?

Existem três tipos de vacina, basicamente, que são feitas para combater a doença do novo coronavírus. O primeiro, a coronavac, é feita de modo bastante conhecido, de tecnologia antiga, ou seja, pego um vírus qualquer, coloco sob condições inadequadas, com tratamento físico ou químico, e atenuo ele. Em outros casos, que não é a do coronavac, até mata o vírus, e quando exponho a pessoa àquele vírus, atenuado, ou morto, vou desencadear uma reação de imunidade. Ou seja, o indivíduo vai desenvolver anticorpos e vai desenvolver células específicas que vão ajudar no combate daquela doença quando o vírus de verdade entrar, futuramente, em seu corpo. Outro tipo de vacina que está se desenvolvendo, como a da fábrica Moderna, pegam um adenovírus, um vírus que não causa doença ao ser humano, e tiram um pedaço do seu RNA e colocam com um pedaço de RNA da covid-19. Então, quando eu expor esta pessoa a esta vacina, a mesma reação será feita, isto e, desencadeia-se uma reação de proteção e fabricação de anticorpos em células que vão combater aquele RNA que tem um pedaço do coronavírus. Quando o coronavírus futuramente entrar naquele corpo, eu já sei como defender-me daquele pedaço, e sem o pedaço o vírus morre. Outra maneira, o terceiro exemplo, é a vacina da Pfizer, que é muito moderna, nunca foi feita para nenhuma outra doença, e é feita com RNA mensageiro, ou seja, tenho o mensageiro, que é o código genético da covid-19 e injeto no indivíduo. Desencadeará uma produção de anticorpos e células específicas para combater aquele RNA e, assim, bloquear. São formas distintas de se fazer vacina: exponho o indivíduo a um produto biológico, um RNA e provoca assim uma memória imunológica.

Existe o perigo do vírus persistir e ficar mais forte, e se sim, quais, caso parte da população decidir não tomar a vacina?

É um perigo. Com disse, no caso da vacina mais rápida que tem uma eficácia de diminuir a circulação do vírus em mais de 50%, se 95% não se vacinarem, o vírus vai, sim, continuar circulando. Cabe ao governo e pessoas fazerem campanhas. Já foram feitas tantas campanhas no passado, para vacina de febre amarela, o Zé Gotinha estimulando a tomar a vacina contra a poliomielite, e aí a mãe levava a criança para tomar; a do sarampo, que é uma doença que teve um surto no Brasil porque as pessoas deixaram de se vacinar. Se não tomar, as pessoas ficam suscetíveis às doenças. Então, se não houver uma campanha, principalmente de esclarecimento à população, esclarecer o que está acontecendo diante desta loucura política dos últimos anos, também circula a desinformação. No consultório, gastamos um tempo enorme explicando às pessoas sobre a importância e segurança de se vacinar. Então, é um trabalho importante também da imprensa em divulgar sobre uma vacina, que ainda não temos uma eficácia maior, e da importância para todo mundo tomá-la, porque se eu não tomar, por qualquer motivo, religioso ou porque tenho medo, o vírus continuará circulando e vai pegar pessoas que tomaram vacina, já que a eficácia é apenas pouco mais de 50%. Se continuar circulando, a hora que deixar de ter proteção vacinal, porque ainda não sabemos quanto tempo a vacina vai perdurar o seu efeito, pessoas anda serão contaminadas. Outra informação importante a ser dita é que ninguém vai pegar ninguém na marra, usar força policial para o indivíduo tomar vacina. Só que já existe lei, de que o indivíduo que não toma vacina, arque com consequências. Não pode tirar visto para sair do país, não pode se matricular em escola pública, não tem determinados benefícios fiscais. Tem que ter uma mínima punição, porque temos que explicar o máximo possível da necessidade da vacinação. Não podemos fechar os olhos para isso, porque se não gasta-se milhões e vidas continuarão sendo perdidas.

E como médico infectologista, como o senhor vê este movimento crescente do negacionismo em relação a eficácia e segurança de uma vacina contra a covid-19? Por que tanta desconfiança com a ciência?

É, pelo que tenho lido, um fenômeno mundial. Nunca, no passado, discutimo eficácia e importância de vacina. Antes deste movimento negacionista dos últimos dois, três anos, todo mundo fazia campanha, fazia fila, brigava por vacina, brigava com o governo quando não tinha vacina disponível, mas hoje estamos num momento louco, voltando atrás. Essa coisa de brigar porque uma é ‘vacina chinesa’, qual a diferença com a da Pfizer, que é feita na Índia? Por que é um país sem tradição? Química fina, basicamente aqui no Brasil e no mundo todo, consumimos produtos chineses e hindus. O insumo básico para estas vacinas são feitas nestes países e são exportadas para o mundo inteiro. A vacina da Pfizer que todos querem, que consideram a ‘oitava maravilha do mundo’, é feita na Índia. Temos que deixar isso de lado e temos que divulgar com dados científicos. E os líderes das comunidades científicas precisam aprender a passar isso à população de forma mais palatável, explicando com paciência, para pessoas entenderem a importância e segurança da vacina. Caso contrário, teremos este atropelo. Este debate, aliás, não deveria nem mesmo acontecer, deveríamos simplesmente tomar a vacina. Quando existe a vacinação é porque processos de segurança já foram analisados à exaustão. Deveríamos apenas esperar para tomar, e não este aspecto de desconfiança. É um absurdo, um em cima do outro, que corre na internet. Precisamos de divulgação, orientação à exaustão.

Obrigar a vacina é uma questão ética da medicina e do Poder Público?

Obrigar não é pegar na marra e levar para ser vacinado. Por exemplo, ninguém consegue matricular a criança na escola, creche, se não tem carteira vacinal completa. Então, não terá acesso à escola, como não viaja porque não adquire passaporte. O indivíduo tem que entender este tipo de sanção. Tem que arcar com as consequências de não querer tomar vacina. Ou seja, tem que ter algo deste tipo, se não, vira o ‘salve-se quem puder’ e as pessoas que querem tomar vacinam ficam à mercê da doença.

Qual a opinião do senhor sobre os resultados até então apresentados da Coronavac, que tende a ser a primeira vacina a ser aplicada no Brasil?

É lógico que desejaríamos que todas fossem 100%, mas não existe vacina 100%. Primeiro, até o presidente Jair Bolsonaro ‘celebrou’ os pouco mais de 50% de eficácia da coronavac, mas lembrando, 50% é questão de diminuição de vírus circulante, não quer dizer que o indivíduo fica mais exposto. E 72% de 100 pessoas que receberam a vacina terão uma forma tão pequena da doença que não tem necessidade de procurar médico, ou seja, uma dor e uma febre, mas 100% de eficácia de bloquear para que o indivíduo vá ao hospital. Se temos uma vacina que 100% dos casos não deixa que precise internar para receber oxigênio, é uma vitória sem tamanho. Está excelente.

Como o senhor analisa o tratamento da covid-19 com medicamentos não comprovados cientificamente?

É uma situação difícil, porque inexiste um medicamento que comprovadamente cure a doença ou impede que o indivíduo pegue a doença. Lá no início da pandemia, uma série de medicamentos foram usados, baseado em experiências anteriores, com doenças virais parecidas com esta causadas pela covid-19, como a Sars, Mers-Cov. Tentaram o uso de drogas, como hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, e todas elas, em relação à covid-19, se mostraram ineficazes, tanto na profilaxia como na cura da doença. Mas ficam politizando estas drogas, dizendo que cura, mas não cura, sem comprovação científica. As drogas que se usam hoje são para minimizar as consequências da doença, como o uso de corticosteroides, anticoagulantes, antibióticos, por exemplo, mas são coadjuvantes no tratamento, não que podem impedir o desenvolvimento da doença ou diminuir o tempo no organismo.

Pelo que o senhor conversa em Piracicaba com pacientes da covid-19, ou pessoas que ainda não a contraiu, ao menos na Unimed, onde o senhor atua, elas querem ser vacinas? Esperam pela chegada da vacina?

A maioria das pessoas desejam, sim, a vacina, apesar de uma boa parte tem desconfiança quanto sua segurança e eficácia. E isso porque o assunto é constantemente colocado em dúvida, causa confusão na sociedade. Por isso a importância de discutir, informar e tirar dúvidas dos pacientes. É um desserviço de pessoas que têm poder de comando a disseminação de conceitos duvidosos e mentirosos. É a dinâmica do negacionismo, que plantar notícias, com objetivos que desconheço. Deixa a população mais desesperado se toma ou não, e é algo difícil para o leigo fazer, mas não há dúvida no meio científico de que precisamos tomar a vacina, é um ato coletivo de amor com a família e com a sociedade. Tem que se colocar mais no lugar das outras pessoas, não vivemos isolados. Empatia é um sentimento que devemos exercer.

Apesar da eminência do início da vacinação no Brasil, é fato que este início de 2021 ainda é um momento de se resguardar e manter as medidas de segurança sanitária. Mas nem todos respeitam. No momento atual, quais são as recomendações para evitar o contágio da covid-19?

As recomendações são as mesmas desde o início da pandemia: isolamento social dentro do possível, uso de máscara, uso de álcool em gel 70%, lavagem de mãos, trabalhar em ambientes arejados ou, sempre que possível, no sistema home office. Nesta segunda onda, em que nos desguarnecemos, voltamos a agir como nada tivesse acontecido. Basta andar pela cidade, muitas pessoas sem máscara, ou com a máscara no queixo, só tampando a boca, com o nariz de fora; confraternizações e festas. Hoje, a maioria das pessoas que nos procuram, sabem como adquiriam e foi assim: reuniões de família, festas com amigos. Os mais jovens voltam para casa e disseminam para pais, tios que terão formas mais graves.

Medidas mais duras, como um lockdown (que praticamente nunca aconteceu em Piracicaba), ajudaria a conter o vírus mesmo durante a vacinação?

O lockdown é a media mais dura, como acontece a partir desta semana em Portugal, onde minimizaram a situação para tentar bloquear a pandemia. Espanha semelhante. Tudo que precisamos fazer é evitar o lockdown, que é um desastre financeiro. Mas os hospitais estão cada dia mais cheios, a demanda é cada vez maior, precisando de mais leitos. Pessoas devem se conscientizar da responsabilidade social e econômica como um todo. Precisamos ficar quieto em casa o máximo possível. O agravamento da doença é uma realidade.

Erick Tedesco

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