Valdemar Correr: Comunidade é contra o pedágio

No final do ano passado os moradores dos bairros tiroleses Santana e Santa Olímpia foram surpreendidos com a notícia de que um pedágio seria instalado na SP-308 (Rodovia Hermínio Petrin) principal acesso aos núcleos localizados em uma área histórica de Piracicaba, conforme apontado pelo Plano Diretor de Desenvolvimento.

A princípio, a praça de pedágio seria instalada no quilômetro 182,5 após a rotatória de acesso aos dois bairros. Dias depois a Artesp (Agência de Transportes do Estado de São Paulo) anunciou a implantação das cabines de cobrança no quilômetro 180, o que obrigará os moradores a pagar a cada ida a Piracicaba.

De imediato, as associações de moradores dos bairros iniciaram uma movimentação envolvendo a população, autoridades políticas de Piracicaba e região, Ministério Público e buscando diálogo com a Artesp para expor suas demandas.

Após duas manifestações dos moradores, uma delas na rodovia, a população segue no aguardo de uma posição da agência.

Aos 54 anos, o biólogo e gestor ambiental Valdemar Correr, atua como diretor de turismo da Associação de Moradores de Santa Olímpia. Ele já foi presidente da entidade por duas vezes.

O piracicabano filho do casal Maria Cecília Stênico e Orlando Correr tem acompanhado e participado das ações que questionam e pedem a mudança da praça de pedágios.

Ele reclama da falta de informações por parte da Artesp e acredita que, unidos, os moradores dos dois bairros, com o apoio da população e autoridades de Piracicaba, conseguirão um resultado positivo para todos.

Prejuízos ao turismo e estrutura dos bairros trentinos aliados ao peso no bolso dos moradores, são alguns dos argumentos apresentados para a rejeição da instalação do pedágio no local defendido pela Artesp.

No Persona desta semana, Correr fala sobre a polêmica em torno do assunto.

Qual sua função na Associação de Moradores do Bairro Santa Olímpia? E quanto tempo o senhor atua nela?
Sou diretor de Turismo. Já fui por dois mandatos presidente e duas vezes vice-presidente.

Quantos moradores vivem em Santana e Santa Olímpia?
Aproximadamente 2.000 pessoas, sendo mil em cada bairro.

Qual a importância desses núcleos habitacionais para Piracicaba?
Em mais 120 anos de existência Santana e Santa Olímpia sempre contribuíram com o desenvolvimento de Piracicaba, seja com o fornecimento de mão de obra nas metalúrgicas, siderúrgicas, indústria de máquinas e automotoras, seja na produção de alimentos e matérias-primas, cana-de-açúcar, criação de bicho-da-seda, etc.

Como a população desses bairros recebeu a notícia da instalação de uma praça de pedágio na rodovia SP-308 (Hermínio Petrin)?
Foi um susto para a população, pois apesar dos balbúrdios, parecia uma coisa distante, mas daí os grupos de WhatsApp, começaram a ‘ferver’

Foi justificado aos moradores o motivo da mudança do pedágio do quilômetro 182,5 para o 180?
A justificativa é que a mudança ocorreu por questões técnicas, o que a meu ver é um absurdo, pois eles preparam um edital em que dizem que será investido bilhões de reais e não tem estudo técnico completo sobre onde implantarão os pedágios? Pra mim a decisão é financeira, ou seja, só estão preocupados com a concessionária e não com a população de Piracicaba, pois implantando o pedágio no quilômetro 180, a concessionária não precisa fazer alça de acesso.

Houve um movimento das associações em busca de apoio político, como foi a articulação?
Sim, estivemos com o prefeito, inclusive ele gravou um vídeo apoiando o nosso movimento nas redes sociais. O procurador do município esteve presente na reunião agendada pela Promotoria Pública com as comunidades e a Artesp e levou como a fala do prefeito que vai fazer de tudo para que o pedágio seja implantado após a rotatória. Tivemos reuniões com alguns vereadores, fizemos uso da Tribuna Popular na Câmara de Vereadores, tivemos o apoio de todos os presentes para elaborar um pedido de mudança do pedágio para depois da rotatória com alguns vereadores. Estivemos junto com a deputada estadual (Bebel –PT) na sede da Artesp para nos posicionarmos sobre o problema.

Representantes das associações chegaram a participar das audiências públicas realizadas pela Artesp, logo após o anúncio da implantação das praças?
Só tivemos conhecimento das Audiências Públicas após as mesmas já terem acontecido. Um absurdo no meu ponto de vista, pois aconteceram em Rio Claro, cidade que não vai ser implantado nenhum pedágio nesse pacote. Já em Piracicaba, que vai ser implantado dois pedágios, não foram realizadas audiências. Um total desrespeito.

Qual ou quais alternativas foram apresentadas à comunidade pela Artesp?
A alternativa apresentada aos moradores é que podemos utilizar uma estrada de terra. Só que atualmente utilizamos uma pista asfaltada e iluminada de dois quilômetros, de Santana até a rodovia, e se utilizarmos a estrada proposta serão seis quilômetros, sem asfalto, sem iluminação e sem conservação, colocando em risco a saúde e a vida dos moradores, pois a mesma será utilizada como rota de fuga.

Qual sua análise do envolvimento político (Prefeitura e Câmara de Vereadores) nessa questão do pedágio?
Acredito que todos estão sensibilizados quanto ao problema que seria para as duas comunidades com a implantação do pedágio antes da rotatória.

E qual a perspectiva da comunidade com relação ao desfecho, o senhor acredita que a Artesp retome o projeto inicial?
Estamos apresentando nossos argumentos e acredito que, com apoio de todos, teremos êxito na nossa empreitada. Sou otimista e acredito no poder de luta de nossas comunidades.

Além do desembolso diário da tarifa, quais outras implicações negativas o senhor aponta para a comunidade local, com a instalação da praça de pedágio na rodovia?
Um dos fatores mais discutidos em nossas comunidades é a rota de fuga, pois acabará com o sossego que os bairros permanecem até hoje. Nossos bairros, a partir da aprovação do novo Plano Diretor, ficou delimitado uma mancha histórica, que servirá para preservação da cultura e tradição das nossas comunidades. Nessa mancha histórica não será possível o alargamento de ruas ou mudanças de fluxos. Hoje nossas ruas não comportam o aumento do fluxo de veículos, pois devido à tranquilidade das ruas são utilizadas pelos moradores para caminhadas matinais e ao entardecer.

Acredita que haverá prejuízos para o turismo?
Com certeza os prejuízos serão imensos. Vale lembrar que Santana e Santa Olímpia estão inseridas na rota de turismo de Piracicaba, temos artesanatos, doces, cafés, cervejas artesanais, cooperativa de vinhos e pequenos produtores de vinho e sucos de uva e que a implantação desse pedágio dificultaria a chegada do bem maior para os vendedores, que é o turista. Vale lembrar ainda, que as duas comunidades oferecem para Piracicaba duas tradicionais festas: a do Vinho – no começo de junho na comunidade de Santana – e a Festa da Polenta – na Comunidade de Santa Olímpia, no final de julho. Se a implantação ocorrer no Km 180 a rota de fuga diminuirá a arrecadação, colocará em risco a vida da população e que como moradores de Piracicaba, não seria justo pagar o pedágio para circular dentro do próprio município.

A agência tem reforçado a questão da redução da tarifa para os usuários que passarem com frequência pela praça, essa alternativa contempla a população dos dois bairros?
Não pelos motivos expostos acima.

No caso da efetivação da instalação do pedágio no quilômetro 180 da rodovia, o que a população pretende fazer?
Nós vamos utilizar todos os meios políticos, técnicos, legais para não permitir a implantação do pedágio no quilômetro 180. Nossas comunidades são guerreiras e nunca desistem da luta. Tenho certeza que unidos venceremos mais essa.

Vocês têm previsão de quando o pedágio será instalado na rodovia?
Não temos informações de quando será implantado o pedágio. Parece praxe da Artesp não avisar nada.

NOTA DA ARTESP

A Artesp informou que a concessão do Lote Piracicaba Panorama foi precedida de seis audiências públicas. Além da realizada em Rio Claro, foram feitas outras nas cidades de Marília, Bauru, Oswaldo Cruz, Rancharia e São Paulo. Segundo a agência, foram seguidos os ritos previstos em lei, garantindo espaço para apresentação de questionamentos, sugestões e manifestações sobre os projetos, conforme regulamento divulgado previamente. 
E além das audiências, a participação da sociedade civil foi garantida por meio da consulta pública que ficou aberta à participação popular entre 18 de fevereiro e 31 de março de 2019.

Sobre a localização dessa praça de pedágio, a Artesp informou que foi reavaliada no projeto de forma a não deixar nenhum dos bairros próximos da divisa entre Piracicaba e Charqueada sem acesso à região central do município. Assim, com a praça na atual localização definida em edital, os moradores dos bairros de Santana e Santa Olímpia terão acesso à região central de Piracicaba por meio do viário municipal, sem passar pela praça de pedágio localizada na rodovia estadual SP 308. E os moradores de Santa Luzia, em Charqueada, também não precisarão passar pelo pedágio para chegar à região central do município.

A responsabilidade pela manutenção do viário municipal é da prefeitura. No caso de Piracicaba, a manutenção dessas vias, inclusive de vicinais e de qualquer alternativa de mobilidade para os seus munícipes, pode ser feita considerando a receita proveniente da incidência de ISS, imposto municipal, sobre as tarifas de pedágio. No ano passado, a Prefeitura de Piracicaba recebeu mais de R$ 1,6 milhão em repasses do ISSQN que incide sobre as tarifas de pedágio já vigentes na região, valor este que aumentará com essa nova concessão.

Beto Silva

Foto: Claudinho Coradini/JP