Valdiza Caprânico: É preciso cuidar da natureza e ensinar as crianças amar os livros

Apenas a segunda mulher a ocupar a presidência do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), Valdiza Maria Caprânico é uma piracicabana – nascida em 29 de julho de 1943 – apaixonada pela terrinha e também pelo meio ambiente – bióloga de formação. Filha de Dante Luiz Capranico e Ermida Françoso Capranico, tem três irmãs: Maria Wally, Walda Aparecida (in memoriam) e Waldizete Maria. Cursou o ensino infantil no Grupo Escolar Dr. Alfredo Cardoso. Depois, o ensino fundamental fez na Escola Sud Mennucci e o ensino médio no Colégio Piracicabano. Cresceu cercada de plantas, o que contribuiu para nutrir o amor pelo meio ambiente. Graduou-se em ciências biológicas na Universidade Católica de Santos. Fez, ainda, curso de complementação em biologia na Faculdade Sul Mineira. Foi professora em escolas de Piracicaba e região, além de ter trabalhado na prefeitura.

Valdiza começou sua carreira literária escrevendo livros para crianças, mas já contabiliza mais de dez na área ambiental. Escreveu, inclusive, trabalhos que foram premiados em Brasília e em Gênova, na Itália. Foi, também, orientadora de projetos de educação ambiental no Museu da Água e por lá ganhou muitos prêmios. Ela conta que, à época, ganharam um prêmio do Canadá que foi um veículo para o projeto Aquamiga, para fazer análises de águas de nascentes, de bicas, de lagoas, com crianças nos bairros. Teve também um tempo no Semae (Serviço Municipal de Água e Esgoto), e logo saiu para fundar uma universidade livre de meio ambiente em Leme. Ficou por lá alguns anos e, de lá, foi convidada para montar a mesma universidade na Terra do Fogo, na Argentina.

E neste Dia Internacional da Mulher, Valdiza contou um pouco de sua trajetória para o Persona do Jornal de Piracicaba.

Como avalia o seu período à frente do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba), que termina este ano?

Foram dois biênios, 2016-2018 e reeleita para 2018-2020. Nesses quatro anos tivemos grandes avanços, apesar de dificuldades financeiras e falta de apoio em geral. O IHGP conseguiu atender a demanda de pesquisadores e aqui, afirmo, pessoas de alto nível cultural da cidade, de outras cidades e estados encontraram no IHGP informações para seus doutorados e seus livros.


O IHGP tem um vasto acerto, muito rico e importantíssimo à memória de Piracicaba. Como está a digitalização deste material?

Nosso acervo é realmente muito rico. Piracicaba pode se orgulhar disso. Acredito que pouquíssimas cidades possuem um tão importante acervo como este. O nosso maior sonho é ver todo esse material 100% digitalizado. No momento, ainda é muito caro para nossa instituição.

O que a população pode esperar em termos de lançamentos de livros e atuação do IHGP até o fim do seu mandato?

Temos muita satisfação em afirmar que o IHGP tem lançado muitos livros nesses últimos quatro anos. E, a pedido da Biblioteca do Congresso Nacional de Washington, temos tido prazer e a honra de ter nossas publicações nos Estados Unidos. Todos os piracicabanos, natos ou adotivos, podem nos procurar para registrar fatos, momentos, épocas de nossa história. Piracicaba é, na verdade, uma cidade muito especial, culturalmente falando. Quase todas as semanas há pessoas registrando fatos de nossa história no IHGP. Isso não acontece na maioria das cidades. Mesmo terminando meu mandato, já existem livros encaminhados para a próxima diretoria lançar.


Como a senhora vê o desinteresse do governo federal diante da cultura e da produção científica?

Infelizmente o brasileiro não tem o hábito da leitura. O poder público está mais preocupado com outras coisas. Ainda estamos na promoção do Carnaval e do Futebol, grandes shows de artistas com pouca qualidade, mas cremos que, daqui pra frente, o país acordará pra essa questão.

Você, como bióloga de formação, tem uma visão crítica, ao mesmo passional, com o meio ambiente. Piracicaba cresce, mas a área verde da cidade, principalmente em relação a árvores nas ruas, tem diminuído. Qual seria uma solução para reforçar a consciência do poder público e da população para essa questão?

Pois é, arborização urbana. Trabalhei muitos anos nessa área. Entristeço-me muito andando por nossas ruas. A população é estranha. Muita gente não quer árvores na frente de suas casas, mas na hora do sol quente, fica à procura de lugares sombreados para deixar seu carro. O poder público tenta implantar essa necessidade de plantio na população. Sou testemunha disso, mas muita gente não aceita plantar árvores em frente a sua casa. Afirmam que elas fazem sujeira. Como você afirmou, tenho visão crítica e muito passional sobre essa questão. Quando posso, tento convencer as pessoas a plantar e cuidar das árvores.


A senhora lecionou em escolas de Piracicaba. As crianças e jovens têm a devida consciência da importância em se preservar o meio ambiente?

Quando eu lecionei, meus alunos faziam plantios. Eles eram motivados, mas, hoje, o ensino deixa muito a desejar. Estão preocupados com outros temas, se esquecem que ar poluído, água poluída, extinção de animais, tudo isso colocará a humanidade também em extinção.

A senhora é natural da terrinha. Você é uma apaixonada por Piracicaba?

Sou uma piracicabana apaixonada pela terrinha, pelo nosso rio. Aliás, você já viu o por do Sol à beira de nosso rio? O sol nascendo em nossa terra? Já estive em outras terras, mas o Sol não nasce e se põe de modo tão maravilhoso como por aqui.

Hoje, 8 de março, é o Dia Internacional da Mulher. Ao longo da vida, como vê o respeito e o espaço da mulher no trabalho de recuperar e guardar a história de Piracicaba?

Só pra constar, o IHGP tem 52 anos de e existência e, além da professora Marly Terezinha Germano Perecin, que foi fundadora do IHGP, eu sou a segunda mulher a ocupar o cargo de presidente da instituição. Deixo o IHGP instalado em local apropriado, graças ao empenho da SemacTur (Secretaria de Ação Cultural e Turismo), Rosângela Camolese, que não mediu esforços para nos colocar num local mais apropriado e seguro. E, após 38 anos num prédio inadequado, coube a mim realizar essa mudança, apesar de muita gente não acreditar que eu, mulher, conseguiria levar nosso IHGP para onde ele hoje está.

Qual outra mulher você poderia destacar que tem grande valor à salvaguarda da história da nossa cidade?

Sabemos que hoje há muitas mulheres se dedicando à pesquisa de nossa história, mas ficam restritas a um espaço pequeno. O IHGP gostaria que elas chegassem até nós.

Em 2017 você lançou o livro “Vamos Salvar Nossa Casa”. Conte-nos um pouco sobre esta produção.

Foi um livro elaborado para crianças com o objetivo de habituá-las a cuidarem com amor e respeito a natureza, pois o Planeta Terra é a única casa que temos para morar.

A senhora já está escrevendo outro livro ou ainda pensa em produzir?

Já escrevi vários livros de Educação Ambiental, da História de Piracicaba para crianças e brevemente lançarei o livro “Sapucaia da Paz”.

Você teve uma participação no Museu da Água. Como foi?

Fui coordenadora do Programa de Educação Ambiental do Semae, de 2001 a 2004. Nesse período lançamos um livro de Educação Ambiental para escolares. O livro é “A vida depende da água”, que foi sucesso no Brasil e que tive a honra de apresentá-lo em um Congresso Internacional em Gênova, na Itália em 2004. Foi um período muito enriquecedor pessoalmente e profissionalmente, pois nesses quatro anos demos ao Semae prêmios municipais, estaduais, nacionais e internacionais. Nessa época, dentro do programa de Educação Ambiental, o Semae foi premiado com um laboratório volante para análise da água para crianças chamado “Água Amiga”.

O que gosta de fazer nas horas de lazer, longe dos compromissos com o IHGP?

Gosto muito de cuidar das plantas, embora moro em um apartamento – cuido muito bem dos meus vasinhos. Também gosto de ler e assistir filmes na TV.

Erick Tedesco