Visionário e apaixonado pelo automobilismo

Maks Weiser nasceu em São Paulo, capital paulista, no dia 24 de março de 1931. Mudou-se para Piracicaba no ano de 1951, acompanhado de seus pais Ignacio e Fani, para terminar os estudos.

Na cidade, o senhor Ignacio comprou um posto de combustíveis na esquina da rua Governador Pedro de Toledo com a rua São José. Contudo, faleceu apenas três meses após a aquisição do posto. Por conta disso, o jovem Maks teve de abandonar seus planos escolares e assumir o empreendimento da família, tocando o posto por sete anos. Além de lavar carros, Maks também polia e consertava pneus de alguns clientes.

Após assistir uma competição automobilística na cidade de Poços de Caldas, onde presenciou um DKW vencendo carros de maior potência, Maks Weiser procurou o então prefeito Francisco Salgot Castillon para realizar as corridas de rua em Piracicaba. Com apoio do Automóvel Clube Paulista, as corridas aconteceram em Piracicaba de 1960 a 1967 e foram um enorme sucesso. Tamanho o sucesso, Maks cravou com sucesso seu capítulo na história do automobilismo da cidade. Além de tudo, levou o nome da cidade a todos os lugares que competiu.

Em 1967, Maks Weiser teve uma de suas vitórias mais emblemáticas: o título de Campeão Paulista em Interlagos com seu DKW número 74 na categoria até 1.300 cilindradas.

Neste Persona, Maks Weiser fala de seu amor pelo automobilismo, das corridas de rua em Piracicaba, das preparações que realizava em seu DKW e também do autódromo que teve a ideia de construir durante o governo Luciano Guidotti, que, infelizmente, não foi para frente.

Como nasceu o seu amor pelo automobilismo?
Com 14 anos eu já dirigia e comprei um carro pela primeira vez em Poços de Caldas. Lá tinha um Cassino e me lembro que um homem perdeu tudo no Cassino, por isso ele queria vender o carro. Meus pais viajavam e deixaram um dinheiro para mim. Não me lembro a quantia exatamente, mas me lembro que era bastante dinheiro. Aí ofereci essa quantia para o cara e ele topou. Depois ele levou o carro para mim em Tabatinga, onde eu morava, uma cidadezinha perto de Araraquara. Foi aí que tudo começou.

Você procurou o prefeito Francisco Salgot Castillon para organizar as corridas de rua aqui em Piracicaba. Como nasceu essa ideia?
Um dia eu assisti uma corrida em Poços de Caldas e vi um DKW ganhando de carros muito mais possantes. Isso me deu a ideia. Procurei o prefeito Francisco Salgot Castillon e falei para ele que queria fazer uma corrida de rua aqui em Piracicaba. Ele perguntou o que eu precisava, e eu respondi que precisava apenas da autorização. Ele autorizou. Depois da autorização do prefeito, eu descobri que precisava de autorização também do Automóvel Clube Paulista. Sem a autorização deles, eu não podia fazer a corrida de rua. O presidente do Automóvel Clube veio, escolheu o circuito e depois ele disse para mim: “Maks, agora precisa de hotel para todos os pilotos e mecânicos, você tem que pagar.” Praticamente caí de costas. Fiquei pensando no que faria para pagar tudo isso. Quando eu finalmente consegui o dinheiro, ele me disse que faltava ainda os prêmios em dinheiro. No fim, tudo deu certo. O Tiro-de-Guerra ajudou a fechar as ruas, colocamos bagaço de cana nas esquinas, caso os carros batessem. A corrida aconteceu e foi um grande sucesso.

Contudo, houve a morte do piloto Cláudio Iberê.
Isso, o problema foi quando o piloto Claudio Iberê faleceu. Eu fiquei arrasado porque toda a iniciativa da corrida partiu de mim. Eu lembro que estava num canto chorando, quando o Ângelo Giuliano, presidente do Automóvel Clube Paulista, chegou para mim e disse: “Maks, por que você está triste?” Eu respondi que estava triste porque o Iberê havia morrido. Aí ele me disse: “Mas e daí? Sorte a sua! Você acha que alguém vai numa tourada para ver o toureiro matar o touro? Não! Na verdade, todo mundo quer ver o touro pegando o toureiro. Uma corrida sem acidente não tem graça.”

Você acha que o fim das corridas de rua se deu por conta da morte do Cláudio Iberê, ou acha que isso foi uma coisa natural?
Não, foi natural. Teve uma corrida de rua em uma cidade aí, cujo nome não me lembro, e o motor do meu carro quebrou. Por isso, eu decidi apoiar outro piracicabano, um piloto chamado Walter Ham. Aí lembro que chegaram para mim e disseram: “Maks, seu amigo matou gente, vai lá ver!” Eu fui lá no local para ver o que tinha acontecido e vi que o carro tinha batido e derrubado um muro. Tinha gente em cima do muro, tinha gente caída pelo chão, chinelo e roupa para todo lado. Perguntei onde estava o Walter e me disseram que ele estava no hospital. Fui até o hospital para vê-lo e ele estava deitado numa cama, doente, chorando bastante. Ele olhou para mim e disse: “Maks, eu matei gente!” Eu disse que não, que nada tinha acontecido. E nesse meio tempo em que estávamos no hospital, a corrida continuou. Em 1968, em Petrópolis, morreu um piloto em uma das corridas de rua. Foi aí que o governo decidiu proibir as corridas de rua.

Quais eram os seus preparativos antes de uma corrida?
Preparar o carro. A carroceria tinha que ser original, mas a mecânica podia mexer. Eu preparava o motor do DKW e a coisa era muito simples. O DKW não tem cárter, ele mistura óleo na gasolina. Além disso, só tem nove peças móveis dentro do motor. É um motor pequeno e simples. Para prepara-lo, nós rebaixávamos o cabeçote até quase o pistão bater em cima. Isso deixa a explosão mais forte. O DKW tinha também “três” carburadores, um para cada cilindro. Era necessário também fazer um polimento para não ter turbulência, a mistura tinha que ir direto para a explosão. O volante do motor também tinha que ser aliviado para sair todo o peso, então o carro ficava sem marcha lenta, em alta de 40hp. Tudo isso deixava o carro um foguete. Onde quer que eu corresse, se o carro não quebrasse, eu ganhava. Tanto é que eu tenho 35 vitórias. São 35 troféus, fora as medalhas que ganhei. Para a minha sorte, um amigo meu chamado João comprou o DKW com o qual eu fui Campeão Paulista em 1967 lá em Interlagos. Depois ele veio e comprou também todos os troféus.

Como foi o título de Campeão Paulista de 1967 em Interlagos?
Eu corria bastante em Interlagos, vivia correndo por lá e conheço aquele autódromo como a palma da minha mão. Naquele tempo, eram 8km de circuito; aí diminuíram para 4km. Na mesma prova correu também Emerson Fittipaldi, só que ele correu com um motor de Porsche de 2.500 cilindradas. Até 1300 cilindradas era uma premiação, e acima disso era outra premiação. Foi a última corrida com o DKW.

Qual corrida você lembra com mais carinho hoje?
Todas! (risos) Depois que parei de correr com o DKW, recebi um convite para correr em Goiânia. Como vi que o autódromo ali era só linha reta, acabei tendo a ideia de correr com minha BMW de uso. Falei com o Chico Landi que ia correr em Goiânia com minha BMW e pedi a ele que colocasse uma carburação dupla para mim, além de trocar também os pneus que estavam muito moles. A corrida era num domingo e ele pediu que eu fosse lá numa quinta-feira para fazer todo o serviço para mim. Quando levei o carro lá, ele virou para mim e disse que eu estava com sorte, pois ao invés de fazer tudo aquilo na minha BMW, ele disse que me emprestaria uma para eu correr. Isso foi em 27 de outubro de 1968, numa corrida chamada 300 Km de Goiânia. No sábado (dia que seria os treinos para a corrida), o prefeito foi fechar os buracos e, por isso, não houve treino nenhum. Eles fizeram sorteio para ver qual carro largaria na frente. Eram 32 carros e eu fui sorteado em 17º posição. Larguei no meio do pelotão. A corrida durava três horas, e quando estávamos em 01h30 de corrida, eu fiz uma curva e o pedal de embreagem simplesmente não voltou. Não dava para passar as marchas. Eu fui para o box e falei para o meu mecânico (de apelido Cabeleira) que o pedal de embreagem tinha travado. Ele abriu o capô e constatou que o suporte do motor havia quebrado; consequentemente, o motor inclinou e afetou o pedal. Ele teve que trocar todo o suporte do motor e eu não sei falar para você quanto tempo fiquei parado lá no boxe. No fim, voltei para a corrida em último lugar e não conseguia nem ver o último colocado, por isso comecei a acelerar o máximo que podia. Fui acelerando e passando um, dois, três… De repente comecei a ver o público torcer para mim. Eu não conseguia entender o porquê, e isso também só me explicaram depois. O piloto que estava em primeiro lugar era de Brasília, e a cidade de Goiânia tinha rivalidade com Brasília. Então os goianos preferiam torcer para um paulista do que para um brasiliense. Mesmo parado no boxe por não sei quanto tempo, consegui ganhar a corrida. Posteriormente fui até o Chico Landi e disse a ele que queria comprar o carro. Essa foi minha última corrida, em Goiânia.

Quando Piracicaba ainda não possuía nenhum autódromo, você teve a ideia de procurar o então prefeito Luciano Guidotti para propor a construção de um. Como foi isso?
Em 1966, eu procurei o prefeito Luciano Guidotti e disse a ele: “aqui no Brasil, só temos o autódromo de Interlagos, é o único do país. Eu quero construir um autódromo aqui em Piracicaba que vai ser o único no interior do país.” Ele disse “tudo bem” e pediu que eu procurasse um terreno. Depois de um ano procurando, acabei achando um. O terreno é onde hoje fica o Cemitério Municipal da Vila Rezende. Quase foi o segundo autódromo do país. A planta era inspirada no autódromo de Rivera, no Uruguai, onde disputei uma corrida em 1964. O autódromo ficou semi-pronto em 1967. Contudo, o senhor Grecco, antigo chefe da equipe Willys, disse ao Luciano que eu queria construir esse autódromo só para eu ficar ganhando as corridas. Luciano me xingou de todos os nomes e mandou desmanchar o autódromo inteiro. A reta do autódromo tinha 800 metros, não sei como o Luciano entrou na dele.

Depois que você parou de correr, começou a trabalhar com concessionárias?
Tive concessionárias. Volkswagen; Yamaha por 23 anos; Audi por apenas dois anos, pois a Audi foi embora do Brasil; além da Willys, que também construí o prédio. O prédio onde hoje funciona a Vivo, na esquina da avenida Armando de Salles Oliveira com a avenida Independência, fui eu quem construí para a concessionária.

Além da paixão por carros, existe alguma outra paixão na sua vida?
Motos. Eu tive uma Yamaha com assento baixo.

Rafael Fioravanti
[email protected]

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