Vítimas da Covid: famílias relembram histórias daqueles que partiram

Foto: Amanda Vieira/JP

Leia histórias de algumas das 500 mil vítimas da Covid-19 no Brasil

Com vacinação lenta, baixa adesão às medidas de isolamento social e sem políticas nacionais de testagem em massa, o Brasil atingiu neste sábado a marca de 500 mil mortes pela covid-19, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa.

Abaixo, leia histórias de algumas das vítimas do vírus.

‘Estava na sua melhor fase. Tudo pela frente’, Lara Nunes, 23 anos, São Borja

Na cama de casa, a universitária gaúcha Lara Nunes, de 23 anos, esperava por uma cirurgia para corrigir uma hérnia de disco e passava o tempo desenhando. Um ano antes, voltou a morar em São Borja com a mãe, Maria Goreti. Queria estar perto dela após a morte do pai, Olegário. No início de março, foi fazer um exame em um hospital e deu positivo. Ela era do grupo de risco: tinha obesidade. Dia 13 seu quadro piorou. Foram mais quatro dias de uma luta que a jovem não conseguiu vencer. “Eu imaginava a Lara como uma ilustradora, sabe?”, diz a mãe, que tem distribuído os desenhos dela “para manter a memória”. “Estava na sua melhor fase. Tudo pela frente.”

‘Meu pai confiou no Bolsonaro e pagou o preço’, José Leocadio Neto, 67 anos, São Paulo

Fazia pouco mais de um ano que o açougueiro José Lueocadio Neto, de 67 anos, tinha conseguido se aposentar. Fã de exercícios físicos, pedalava e caminhava diariamente e criticava o sedentarismo dos filhos. Neto se infectou em setembro e foi internado com comprometimento pulmonar. Foram 44 dias de internação, 33 deles sob ventilação mecânica invasiva. Morreu no dia 27 de outubro. A filha Silvia se questiona se o desfecho teria sido outro se Neto não tivesse sido influenciado pelas falas de Jair Bolsonaro, de quem era admirador. “Quando vieram os sintomas, ficou postergando a ida ao hospital, omitia o que estava sentindo. Meu pai confiou nele e pagou o preço”, lamenta ela.

‘A covid levou embora todo o seu saber’, Kuaxiru Karajá, 65 anos, Ilha do Bananal

Kuaxiru Karajá, anciã artesã de 65 anos, foi a primeira vítima da pandemia a morrer na aldeia do povo iny, no dia 14 de agosto de 2020. Depois, três de seus irmãos morreram com a doença. Dois deles moravam na mesma aldeia. O sofrimento da família não cabe em palavras. Kuaxiru começou a ter falta de ar e cansaço. Foi atendida pelo postinho da aldeia vizinha, Werebia, onde ficou no oxigênio.

Depois foi levada para São Félix, mas não resistiu. Kuaxiru era uma grande artesã. Conhecia como ninguém as artes karajá. “A covid levou ela e todo o seu saber, que era importante para a comunidade”, lamenta a sobrinha Tuinaki Karajá.

‘O luto que devíamos viver não aconteceu’, Walterrir Calente Junior, 49 anos, Guarulhos

Walterrir Calente Junior chegou em casa, em Guarulhos, dizendo que um colega de escritório havia testado positivo para covid. Na manhã seguinte, o advogado de 49 anos foi fazer o exame. Recebeu a recomendação de ficar isolado e, em cinco dias, começou a tossir e ter falta de ar. Levado ao hospital, recebeu oxigênio e no mesmo dia foi para casa”, lembra a mulher, Patrícia Zumpano. Morreu dia 19 de março. Antes do enterro, Patrícia, Beatriz e Ana Júlia, viúva e filhas, fizeram o teste e deram positivo também. “As coisas aconteceram muito rápido. Lidar com o luto sem poder interagir com as pessoas dentro da mesma casa foi horrível”, diz Beatriz.

‘Senhor, deixa eu voltar pra minha casinha?’, Wilber pontes, 48 anos, Goiânia

Toda manhã, Wilber Pontes, de 48 anos, tomava seu “detox”, um suco de couve, gengibre e abacaxi. Ele sentia prazer em acordar cedo, vestir uniforme, calçar sapatos e ir trabalhar como motorista da Goiás Turismo. Mas era em casa que gostava mais de ficar, onde escutava sertanejo, preparava molho de peixe e passava tempo com a mulher, Lilian Ernandes. “Ele amava demais a vida”, lembra ela. Em março, ficou doente e foi internado com comprometimento pulmonar de 40%. “Senhor, deixa eu voltar para a minha casinha?”, era o apelo a Deus. Da enfermaria, ele passou para a UTI e depois foi intubado. Morreu em 13 de abril.

‘Ele nos deixou no melhor momento’Mark Anthony Tibola da Silva 4 anos, Santa Maria

Quando o caixão se fechou, Mark, de 4 anos, descansava abraçado a Alceuzinho. O boneco de pelúcia acompanhou o menino por uma rotina de jalecos brancos e enfermeiros, desde que uma bronquiolite levou à paralisia cerebral, aos 6 meses de idade. Seus pais, Lilian Tibola, de 34, e Watson Carvalho da Silva, de 30, relatam que o medo do coronavírus colocou a família em “internação domiciliar”. De Frederico Westphalen foram para Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, para facilitar o acesso ao tratamento de saúde de Mark. Essa cautela, no entanto, não impediu que a covid-19 os atingisse – e houve uma rara despedida. “Com já estava com covid, pude beijar, abraçar, conversar com ele”, diz a mãe. Internado no HUSM, o menino não resistiu a três paradas cardíacas. “Nosso filho nos deixou no melhor momento. Tinha aprendido a sorrir.”

‘Estou vivendo meu luto em parcelas’, Ademar Miguel da Silva, 62 anos, Belo Horizonte

Ademar Miguel da Silva, policial militar aposentado de 62 anos, levava uma caneta consigo para todos os lugares e fazia diversas anotações sobre o seu dia. Quem adquiriu um hábito semelhante foi a filha, Alana, de 29 anos. E ela abre um caderninho com suas anotações sobre o período entre os dias 1 e 26 de janeiro. O cansaço, acompanhado de tosse seca levaram Alana a suspeitar de covid-19, mas o pai insistia: “Isso é gripe mal curada”. Contudo, no dia 13, após a visita de um parente, Ademar convulsionou e foi levado para o hospital em constante piora. Ela acompanhou o pai nos dias seguintes e o ajudou a executar tarefas simples, como levantar e ir ao banheiro. Entre os dias 15 e 25 de janeiro, Ademar foi intubado. Morreu no dia 26. “Até hoje não consegui viver meu luto, estou vivendo em parcelas. Eu preciso chorar e botar para fora. Dói muito, mas preciso.”

‘Sinto que ele está em casa. Sinto falta dele’, Antonio do Amaral, 77 anos, Aparecida

A professora aposentada Mércia Bittencourt do Amaral, de 70 anos, não dispensa elogios para o marido, Antonio do Amaral. “Ele era uma pessoa muito melhor dou que eu”, diz a viúva. Iriam completar 48 anos de casados em julho. Ele tomou a primeira dose do imunizante em janeiro, mas, no fim de fevereiro, vieram os sintomas da doença: o casal estava com covid. A situação não tardou a piorar e ele foi internado. “Ele não queria ficar no hospital, queria vir embora a todo custo, ligava para a nossa filha lá em Guarulhos, pedindo para sair”, conta Mércia.

A notícia do falecimento veio como um baque. “Tudo aconteceu muito rápido, ele saiu de casa e não voltou. Eu não o vi mais, não tive tempo para me despedir. Não sei como lidar com a ausência dele na minha vida, ainda sinto que ele está em casa. Sinto falta dele nos detalhes.”

‘Não foi só mais um. Era uma pessoa boa’, Evanildo Jorge, 49 anos, Fortaleza

Evanildo Jorge tinha mulher e quatro filhos. Aos 49 anos, o despachante se alimentava bem, não ingeria bebida alcoólica, não fumava e jogava futebol duas vezes por semana. Era evangélico. Uma história interrompida pela covid-19, em 4 de junho, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Bom Jardim, na periferia de Fortaleza. Morreu à espera de um leito da UTI. Para a tristeza da família, dez dias depois, o nome do despachante ainda constava da lista de pessoas que seriam vacinadas. Valdenice Jorge, de 55 anos, conta que o irmão temia buscar auxílio médico por medo do pior. Já na UPA, precisou de sedação, mas a medicação não funcionava. “Aumentaram a dose, mas ele não resistiu”, conta. “Era uma pessoa boa, que socorria as pessoas podia ser a hora que fosse”, diz a autônoma. “Creio que ele está com Deus.”

Agência Estado

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