Volta presencial às aulas pode causar série de problemas (Foto: Amanda Vieira/JP)

Uma eventual volta às aulas presenciais nos próximos meses, indicado em junho pelo governador do Estado de São Paulo João Doria, é assunto recorrente até mesmo em corredores de hospitais de Piracicaba, entre diretoria e equipe médica. Um recente estudo da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) aponta que essa medida representaria um perigo a mais para cerca de 9,3 milhões de brasileiros (4,4% da população total) que são idosos ou adultos (com 18 anos ou mais) com problemas crônicos de saúde e que pertencem a grupos de risco da covid-19. Para Miki Mochizuki, diretor técnico do HFC (Hospital dos Fornecedores de Cana), que concorda com o alerta, afirma que o retorno seria precipitado. “É mesmo preocupante”, afirma.

São Paulo é o estado com maior número absoluto de pessoas no grupo de risco indicado pela Fiocruz: cerca de 2,1 milhões de adultos e idosos em grupos de risco com crianças em casa, seguido por Minas Gerais (1 milhão), Rio de Janeiro (600 mil) e Bahia (570 mil).

Mochizuki teme, principalmente, pelas pessoas de mais idade que moram juntos às crianças e adolescentes em idade escolar. “Jovens são mais assintomáticos, mas e quanto aos pais, avós e tias com quem convivem? Podem levar a doença da escola para casa a um grupo que é mais suscetível ao vírus”, destaca o diretor do HFC.

No hospital, durante o período em que o HFC atua no combate à covid-19 (março a agosto), a taxa de letalidade mais preocupante pela doença (36,3%), conforme indica Mochizuki, é o grupo de pacientes entre 60 a 80 anos. Nesta faixa etária, 8 pessoas, de 42 pacientes, vieram a óbito (número apenas do HFC). No entendimento do diretor, um grupo que corre mais risco se entrar em contato com alguém infectado.

Outro ponto relevante sobre o assunto, explica Mochizuki, é a impossibilidade de Estado, município ou qualquer entidade em garantir a total segurança dos estudantes no ambiente escolar no que diz respeito à higienização, não por incapacidade técnica, mas sim porque é da natureza dos mais novos em não cumprir o distanciamento, por exemplo. “Mantêm contato mais próximo um com os outros, além de trazer material usado na escola para as casas”, completa.

Supostos casos de reinfecção – existem dois em análise no HFC, revela Miki – também preocupam o diretor técnico do hospital, seja no impacto de um retorno entre agosto ou setembro das aulas ou mesmo na flexibilização da quarentena em Piracicaba. “Estamos tentando entender o que acontece nestes casos. Entendemos, previamente, que talvez uma pessoa foi exposto a uma quantidade leve do vírus, e adquiriram apenas uma imunidade insatisfatória, ficam mais suscetíveis a um novo contágio”.

Ter os filhos de volta às salas de aula, além disso, destaca Mochizuki, é colocar o corpo clínico em perigo. “Nossa equipe tem idade média de 40 a 45 anos, com filhos em idade escolar. Estamos há meses mantendo um protocolo de distanciamento, de isolamento social, cumprindo medidas de higienização. A criança ou adolescente indo e vindo da escola para casa quebra estas medidas, por mais regrados que possam ser. Não queremos colocar ninguém, seja equipe ou pacientes, em perigo”.

Erick Tedesco

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