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Não somos muitos, ainda, os que votamos para presidente da República antes do golpe militar e da ditadura. Estou, cansadamente, entre eles, os que fomos às urnas em 1960, num país em grande turbulência política. Foi – aos meus 20 anos – o primeiro voto para a Presidência. O Brasil era um vulcão prestes a explodir, tanto pela semeadura de ódios como pela efervescência da esperança no futuro. Juscelino Kubitschek deixara a nação em êxtase, com a proposta de seu governo – “50 anos em cinco” – sendo Brasília a meta-síntese. O filósofo e escritor francês, André Malraux, declarou-a “A Capital da Esperança”.

Votei em Lott, o Henrique Duffles Teixeira Lott, o “Marechal da Vitória”,que impedira outra tentativa de golpe da então UDN. Esperávamos, na verdade, o retorno de JK em 1965. Para reavivar sonhos. Mas veio a ditadura. E, quase 30 anos depois, em 1989, os brasileiros reconquistaram o direito de, livremente, votar em um candidato à Presidência da República! Não se tratava mais de uma obrigação, de dever: era a reconquista de um direito! E jamais irei esquecer-me daquela manhã, quando, pela segunda vez, iria votar para eleger um Presidente do Brasil. Foi uma sagrada manhã cívica, consagrada, a indescritível emoção de, por fim, termos readquirido a liberdade que nos fora roubada. Vivi um ritual, uma liturgia, um culto pagão, mas sagrado: eleger o Presidente!

Todo engalanado, ouvi o Hino Nacional na fantasia triunfal de Gottschalk. E chorei durante o meu solitário culto matinal, ao encantamento que, ao piano, os dedos de Nelson Freire faziam ecoar. Chorei de emoção, de alegria, de gratidão, de alívio pelo que nos parecia o final da doída luta pelo ressurgir do Brasil altivo, que nos apaixonava. Assim, ao colocar a cédula na urna, tive certeza de voltar a entregar a minha oferta no altar da Pátria, a que fora, sim, amada, idolatrada, salve, salve… Aquele voto era, para mim, a hóstia, no seu profundo significado, de sacrifício. Votar, depois de 30 anos, foi nosso sacrifício, a sacralidade de uma luta, a hóstia.

Passaram-se outros e confusos 30 anos. E deixei de votar nas diversas últimas eleições. Recusei-me a fazê-lo. Pois entendi estar sendo usado, vivendo uma farsa estrutural. Pois, aqui mesmo em Piracicaba, um pastor evangélico – após o resultado de uma eleição municipal – teve a ignominia de declarar: “Eu fiz um negócio com um deputado e dei 50 mil votos para o candidato a prefeito eleito.”

Nada aconteceu ao deputado, ao pastor, aos eleitores de cabresto, ao candidato eleito. A República e a democracia pela qual minha geração tanto lutou terminaram naquilo que ainda continua: um curral de eleitores. Meu voto sagrado tinha sido, já de princípio, destruído pela venalidade de outro político, um pastor e suas 50 mil cabeças de gado-humano.

Agora, os brasileiros votarão em eleições municipais. Por que votarão? Qual o objetivo, qual o propósito, qual o ideal? Ou votarão apenas por ser um dever, sem se pensar seja um direito? E em quem votarão? No parente, no candidato do pastor ou de um familiar, num palhaço de circo ou num palhaço da política? Para que votarão? Para cumprir obrigação, para obter algum futuro proveito, para ajudar um grupo, uma seita, uma igreja? Ou para – nesse tempo de angústias – buscar quem possa – com competência e dignidade – estudar e discutir o que haverá de ser após essa hora de transformações aflitivas?

Ainda outra vez, lamentando, não irei votar. Como desobediência civil. Para não ser comparsa de um sistema viciado e degradante para a nação. O voto reflete a consciência de cada um. Ao final, as urnas dirão que povo somos ou que aceitamos ser.

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