Zé Luis Ribeiro: O primeiro direito do cidadão é o emprego

Nascido em Anhembi(SP), em novembro de 1970, filho de José Ribeiro e Maria de Lourdes Ribeiro, e irmão de Divina, Valdir, Regina, Carlos e Celso, hoje, José Luiz Ribeiro é uma personalidade conhecida e reconhecida em todo o estado de São Paulo por seu trabalho frente ao Sindicato dos Metalúrgicos de Piracicaba e região. Como vereador, secretário de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo e secretário Municipal de Trabalho e Renda, empenhou-se na luta pelos trabalhadores, inclusive metalúrgicos. Sua virtude e simplicidade vem dos pais que, como ele mesmo diz “me ensinaram a ter honra, ser digno, trabalhado e honesto”.

Apesar de não ter nascido em Piracicaba, Zé Luiz do Sindicato, como é conhecido, tem o título de Cidadão Piracicabano e desde cedo focou sua vida no trabalho, estudo e no bem-estar da comunidade. Divorciado, pai de Caio e Amanda, já formados pela USP, e das gêmeas, Maria Catharina e Maria Valentina, de 10 anos, Zé Luiz nas horas livres dedica-se a família. A entrevista deste domingo da seção Persona vai traçar a vida do menino Zé, que veio pequeno da roça à cidade, virou metalúrgico, sindicalista e, na vida pública fez a diferença para milhares de trabalhadores.

Por que escolheu a cidade para morar/trabalhar?

A vinda para cá se deu com meus pais. Eles tiveram seis filhos, viviam com um salário-mínimo tirados com o suor do trabalho na roça de feijão, milho, mandioca e da criação de galinhas e porcos. Era ainda criança quando a fazenda onde morávamos passou por mudanças e viemos para Piracicaba em 1976. Compramos um pequeno terreno aqui no Jaraguá, com uma casinha de madeira onde morava todo mundo junto. Não sou nascido aqui, mas tenho título de Cidadão Piracicabano e Piracicaba é a cidade do meu coração.

Qual a sua formação e como se deu sua carreira?

Não foi fácil, mas nunca deixei de estudar. Trabalhei na roça desde criança. Fiz o ginásio em Anhembi, então todo dia a gente pegava um caminhão e andava 20 quilômetros, ida e volta, para ir à escola. Em Piracicaba, completei meus estudos e hoje sou universitário do curso de gestão pública. Na área de metalurgia, trabalhei numa fundição de bronze, no bairro Jaraguá. Com 18 anos, fui para a Dedini como ajudante de produção e depois para a Codistil. Neste tempo fiz diversos cursos no Senai, de qualidade, desenho e sou caldeireiro de profissão. Em 1984, comecei minha atuação e formação sindical como suplente da diretoria, sendo primeiro-secretário, vice-presidente e, em 1994, eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. A partir do sindicato, iniciei minha vida como vereador em 2004. Desenhamos um projeto não só de ajudar o trabalhador nas fábricas, mas também toda sua família. Eleito, tive mandato até 2014 quando tive o grande momento da minha vida pública sendo convidado pelo então governador Geraldo Alckmin para ser secretário de Estado na pasta de Emprego e Relações do Trabalho (SERT). Foi na secretaria que o governador me deu um apelido muito carinhoso “o maestro do emprego”, porque consegui fomentar muitas ações para gerar emprego e renda. Antes disso, criei o sindicato cidadão cujo slogan, é “Garantia da cidadania” e foco na qualificação profissional.

Parece que foi tudo fácil, mas vivi momentos difíceis na minha vida, nos anos 1980, durante o Regime Militar. Foi duro e, hoje, quem defende o regime militar está fora da realidade, não sabe o que é apanhar, sofrer ações desumanas. Nesse período, éramos cinco mil metalúrgicos; crescemos e chegamos a ter mais de 30 mil trabalhadores na base sindical. Com o plano real e a inflação caindo, os trabalhadores precisariam de outras formas de renda, foi quando surgiu o primeiro PLR (Participação nos Lucros e Resultados) no setor metalúrgico no Brasil, aqui em Piracicaba. Ai se criou essa cultura de competitividade, qualidade e produtividade. Atualmente, Piracicaba tem cerca de 30 multinacionais. Elas escolheram Piracicaba não porque o Zé é bonito (risos) porque aqui tem profissão, tem estudo, tem escolas técnicas. Piracicaba tem uma das melhores mão de obra do Brasil.

O que gosta de fazer nas horas vagas?

As pessoas costumam falar que eu não durmo ou que durmo pouco. Às vezes ligo para meus amigos as 4h e falo: “E aí, acordei você?” (risos), é uma brincadeira que eu faço para todo mundo. Temos que começar cedo e a vida como trabalhador metalúrgico e sindicalista me ensinou isso, estar no trabalho as 5h da manhã e, muitas vezes realizar assembleias junto a categoria. Além disso, gosto muito de futebol, assistir os jogos do nosso XV de Piracicaba, qualquer tipo de esporte, filmes, noticiário. Nós que acordamos cedo precisamos saber da economia, o valor do dólar e do Euro, pense bem: aqui no Brasil é seis da manhã, mas do outro lado do mundo já são seis horas da tarde. Antes de sair de casa é importante estar bem informado. Parei um pouco de jogar futebol e ainda jogo truco com os amigos. Mas, acima de tudo isso, amo curtir meus filhos, principalmente as gêmeas, já que meu filho Caio fica mais em São Paulo e a Amanda em Campinas, e as minhas Marias estão sempre mais perto de mim. Elas gostam muito de brincar, passear, de animais de estimação. Gosto muito de passear com elas, ir aos parques, uma pena que isso está mais restrito, mas temos aproveitado bem juntos, dentro de casa vendo muitos filmes, seriados, com jogos lúdicos, entre outras coisas.

O senhor foi sindicalista, secretário estadual de Emprego e Relações de Trabalho e recentemente esteve à frente da Secretaria Municipal de Trabalho e Renda, em Piracicaba. Como o senhor avalia a geração e manutenção do emprego nessa pandemia do novo coronavírus?

Difícil. Muito difícil. Posso dizer que o que segurou a economia foi o setor sucroalcooleiro. Por isso, graças a essa visão de futuro que nós tivemos lá atrás, Piracicaba diversificou seu polo industrial com fábricas que constroem fábricas, de geração de energia, petróleo e gás, automotivo, máquinas, tratores, cervejarias artesanais, além de ter a maior concentração de startups do Brasil. Apesar disso, por exemplo, a Hyundai que tinha projeção de fazer até 200 mil carros no ano, vai fabricar só 140 mil. Nós do sindicato precisamos ir até lá, conversar, dialogar para manter os empregos dos metalúrgicos e conseguimos. É um momento muito difícil para a economia mundial. Se o mundo, o Brasil vai mal, Piracicaba também vai sofrer com isso. A pandemia trouxe muita dificuldade para todos os setores e a manutenção do emprego virou desafio.

Em sua opinião, qual o principal desafio dos governos Federal, Estadual e Municipal, no pós-pandemia?

O pós-pandemia é o grande desafio, principalmente para o Governo Federal. Ele precisa projetar oportunidade para geração de renda. Se o trabalhador tem um emprego, ele consome. Ele consumindo a indústria cresce, a indústria crescendo a economia também cresce. O desafio, neste momento é encontrar uma vacina para a covid-19. No pós-pandemia será preciso investir no ser humano e é nesse ponto que o governo federal tem papel muito importante. O Brasil é um país que tem muito a ser feito. São Paulo tem as melhores rodovias, mas sai daqui para você ver! Além de rodovias, nós temos carência de hospitais e isso ficou muito claro nesta pandemia. Piracicaba precisa urgentemente de um fórum de desenvolvimento econômico, isso é urgente no pós-pandemia. Quando eu era vereador eu criei esse fórum, com um ciclo de debates com grandes empresas como Caterpillar, Raízen, Dedini, Arcelormittal e Hyundai. Precisamos retomar este debate de entender como (re)criar este fórum, como continuar qualificando os trabalhadores, apoiando-os no setor industrial e como reduzir impostos. O grande debate será o apoio à indústria, renda para o trabalhador e pensar na educação. Para ser um país do primeiro mundo temos que investir na educação, no ensino para jovens e adultos.

Estamos em um ano eleitoral, quando serão definidos os vereadores e prefeitos. Qual será a principal pauta dos futuros ocupantes nos poderes Executivo e Legislativo no que se refere a emprego e geração de rendas?

Eu reforço aqui que precisamos (re)criar o fórum de desenvolvimento. Precisamos parar de pensar que o patrão é inimigo do trabalhador e vice-versa. Sem empresa não tem emprego. Eu sempre digo que o primeiro direito do cidadão é o emprego. Se a gente quer ter seriedade na vida pública, precisamos combater a corrupção, trabalhar educação, saúde, moradia, lazer e emprego, fomentar políticas de emprego. A pandemia nos ensinou o home office. Quantas pessoas não vão mais voltar para seu escritório ou para as fábricas devido a este novo sistema de trabalho? Muitos vão continuar a trabalhar em casa e isso já ficou notório para todos nós. Além disso, é preciso se atualizar buscar novas tecnologias. Hoje tudo é feito ‘na palma da mão’. As escolas técnicas, as universidades vão precisar de um olhar diferente diante desse novo tempo que se aproxima. As tecnologias são iguais, mas quem faz a diferença é o ser humano. Se o trabalhador, o empresário brasileiro tiver o apoio do governo, em todas as esferas, nosso futuro tende a ser muito promissor.

As atuais políticas são suficientes para garantir a retomada da economia?

Não. O dólar está muito alto e para quem exporta, está ficando difícil. Precisamos pensar em desenvolvimento. Nós temos a maior riqueza desse mundo que é matéria-prima. Se uma peça sai daqui, vai para os Estados Unidos e depois volta para o Brasil, por exemplo, isso encarece o produto. Hoje as medidas tomadas são paliativas. É preciso pensar em novas políticas públicas de investimento, melhorar a infraestrutura, tecnologia e educação. Recentemente falei com representantes do Desenvolve SP e eles não tem crédito, nem dinheiro para fazer financiamento. O Banco do Povo, numa crítica construtiva que vou fazer, quando deixei a secretaria, nós trouxemos mais de 4.500 vagas de qualificação, com bolsa de R$ 600 para fazer o curso, passe de ônibus; foram R$ 5 milhões para o Banco do Povo e hoje tem empresário, pessoa física e jurídica fazendo o pedido de R$ 5 mil no Banco do Povo e não tem. Isso não é culpa do secretário Evandro, do prefeito Barjas, e nem do sindicalista Zé Luiz, é culpa da falta de investimento. Mais do que nunca, o Banco do Povo precisa criar mais linhas de crédito e recursos para esse povo que está virando empreendedor, que perdeu emprego que vai fazer um bolo em casa, um pão caseiro, uma costura, um salão. Tivemos curso de salão de beleza e de cuidador de idosos, em que todos os participantes estão empregados. O empresário e o trabalhador que procura uma linha de crédito está com muita dificuldade. Não é questão de criticar, porém será necessário melhorar muito mais no pós-pandemia.

Qual a sua opinião sobre as reformas propostas pelo Governo Federal, elas são viáveis no pós-pandemia?

Algumas precisam ser mais debatidas. A Reforma Trabalhista foi enfiada goela abaixo. Teve muita coisa que foi boa, mas outras não mudaram nada. No caso dos metalúrgicos, por exemplo, muitas coisas já estavam garantidas em convenção coletiva. Teve a Reforma da Previdência e, quando todos pensavam que o país cresceria, veio a pandemia. Isso não é culpa do governo. Os governantes são culpados de começar muito tarde as ações de combate a pandemia, houve muita briga, teve ministro da saúde pedindo demissão, é um absurdo. As orientações de saúde, para uso de máscaras, álcool em gel, aglomeração vieram tardiamente. Fiquei sabendo, logo no início da pandemia, que um grupo onde estavam 20 pessoas trabalhando juntas, seis pegaram a doença. Acredito que se tivessem seguido as orientações não teria a contaminação. As ações dos governos estaduais e municipais ajudaram a amenizar a situação de contágio em todo o país.

Como o senhor avalia a atuação dos governos (Federal, Estadual e Municipal) no enfrentamento da Covid-19? As decisões tomadas foram acertadas?

É uma pergunta difícil, pois faltou diálogo. Faltou unidade. As medidas foram acertadas. São Paulo tomou as decisões certas, Piracicaba também, mas ainda é preciso pensar na preservação da vida. Conheço pessoas que perderam gente da família, pai, irmãos, tios, sobrinhos, pessoas da nossa idade e que não escolheram ser pobre ou rico, todos ficaram iguais perante a Covid-19 e fico triste por essas perdas. Tiveram medidas acertadas, mas elas demoraram a acontecer exatamente pela falta de união nacional. Se tivéssemos deixado as desavenças para trás, brigas políticas de lado, tenho certeza que teríamos preservado muito mais vidas.

Quando secretário municipal, o senhor investiu para a qualificação e requalificação profissionais. Acredita que este é o caminho para que o trabalhador que perdeu o emprego durante a pandemia possa retornar ao mercado de trabalho?

Sim. Quando estive nas Secretarias (SERT e Semtre), trabalhamos muito na área do empreendedorismo. E vejo cada vez mais potencial nas pessoas em serem novos empreendedores, inclusive nas fábricas. Com a inflação em queda, é possível investir mais, assim devemos colocar na frente de tudo a qualificação de homens e mulheres e investir no empreendedorismo. É preciso tornar este debate público entre empresas, trabalhadores, prefeitos, escolas técnicas, universidades, é momento de unir e destacar as profissões do futuro, de como trabalhar em casa, empreender, criar iniciativas de empresa entre pai e filho, marido e esposa, e como contratar mais funcionários, e melhorar o seu produto. Por isso, é importante trazer de volta o Fórum de Desenvolvimento Econômico. Precisamos fazer parcerias com as grandes empresas para saber qual o profissional eles precisam, qual o perfil destes. O trabalhador precisa, também, ser mais comprometido, todos sabemos que é preciso receber um bom salário, qualidade de vida, vale-compras, cesta básica, plano de saúde, PLR. Essa tem que ser a realidade desde o chão de fábrica até o mais alto executivo da multinacional. Teremos um momento de muita competitividade, pois uma vaga de emprego é mais concorrida que uma vaga para estudar medicina em universidade pública. Se falarmos que uma empresa vai contratar 100 trabalhadores vão aparecer cinco mil pessoas interessadas.

O senhor foi um importante articulador para a instalação de um polo automotivo, ampliando a matriz econômica da cidade. Como secretário de estado e municipal, atuou para vinda de novas empresas. Há ainda negociações em andamento que possam trazer mais vagas de empregos à cidade?

Sim, temos muitos investidores interessados na cidade, muitos projetos em andamento. Lógico que a pandemia segurou muitos desses projetos, mas tenho certeza que senão começar acontecer algo ainda este ano, em 2021 teremos novos investimentos e empregos. Esse foi o papel que tive como líder sindical, como secretário de estado e secretário municipal. Algumas pessoas criticam por eu ter ido cinco vezes para a Coreia, quando fui conhecer a fábrica da Hyundai, quando fomos com os executivos da Caterpillar à Europa, falar com CEO (diretor executivo) deles. E muitos diziam: “A lá, ele fica viajando!”. Sim, para trazer emprego à cidade, renda, novas fábricas. Se Piracicaba não tivesse o polo automotivo que gera mais de 20 mil empregos diretos e indiretos, o que seria de nós? Se nós não tivéssemos trabalhado os acordos com a Caterpillar, quantos empregos seriam perdidos? Na ArcelorMittal, Delphi, Elring Klinger… Nós temos um polo de multinacionais importante na cidade, mas também temos valorizado nossas empresas como o grupo Dedini, a Mausa e todas as empresas piracicabanas e empresários locais, mas não podemos esquecer que é necessária uma política internacional. Eu sinto falta de um secretário ou um coordenador de políticas de investimento internacional na cidade para ampliar os relacionamentos econômicos. Falta esse elo e vou buscar isso futuramente, para podermos avançar.

A pandemia fez com que o Governo Federal reduzisse investimentos nos municípios e estados. Como acredita que a cidade deve construir suas relações políticas com o Governo Federal para garantir recursos, principalmente para os setores da saúde e desenvolvimento econômico

Piracicaba não tem um deputado Federal. Não tem. Já chegamos a ter ministro, um, dois, três deputados, hoje não temos. Às vezes o próprio prefeito tem dificuldade em falar com o governador, com um ministro. Então, acho que essa construção nacional precisa ser trabalhada. Ter mais deputados federais ajudaria muito a cidade no fomento de investimentos e políticas públicas locais. Isso será primordial no pós-pandemia. Foi bom o auxílio de R$ 600? Foi ótimo e está sendo, mas uma hora vai acabar. Todos defendem sua manutenção, mas não será possível dentro de pouco tempo, principalmente com a economia parada. Por isso é preciso fortalecer esse diálogo entre os setores produtivos, empresarial e industrial com o governo. Este seguimento é importante em nível de estado e também de município. Se eu fosse um deputado, um senador, faria um encaminhamento desse tipo. Vislumbro, futuramente, uma cidade com mais emprego, saúde, e preservação do nosso rio Piracicaba. Quero ver essa Piracicaba que eu amo tanto ficar um município ainda melhor para as futuras gerações.

Beto Silva